A data da fundação foi 22 de novembro de 1889 

Rezam os registros que, em julho de 1889, um levantamento preliminar feito pelo engenheiro e tenente José Joaquim Firmino revelou que existia na região da foz do Rio Iguaçu uma população de 324 pessoas. Eram 188 paraguaios, 33 argentinos, 93 brasileiros, 5 franceses, 2 espanhóis, 1 inglês e 2 uruguaios que aparecem na lista como “orientais”.  

Quatro meses depois, em 22 de novembro de 1889, o tenente Antônio Batista da Costa Júnior e o sargento José Maria de Brito anunciaram oficialmente a fundação da Colônia Militar do Iguassú, passando o recado de que, a partir daquele momento, aquelas terras tinham autoridades brasileiras constituídas. A partir daí temos um silêncio quase completo sobre o progresso da população da colônia. O próximo passo, demograficamente falando, segundo fontes brasileiras, foi a notícia da presença de mais de dois mil habitantes na colônia militar no início do século 19.  

Continuaríamos sem saber nada dessa época se não fosse o etnólogo, antropólogo e folclorista argentino Juan Bautista Ambrossetti, considerado herói no seu país e um dos visitantes frequentes da Colônia Militar do Iguassú. Em 1892, três anos após o anúncio oficial do sargento piauiense de que a terra deixava de ser “uma casa da sogra”, Ambrossetti era recebido como hóspede científico da colônia militar. Ele registrou todas as suas viagens e, como por milagre, podemos ler hoje o que ele escreveu e, assim, viajar com ele no tempo. Sobre a Colônia Militar do Iguassú, ele escreveu: “Atualmente possui uns 500 habitantes entre brasileiros, paraguaios e argentinos”.  

Ambrossetti, como naturalista, participou de todos os movimentos científicos e intelectuais em território argentino ao ponto de ser proclamado como o maior especialista em arqueologia, natureza e folclore da nação vizinha. Entre as grandes descobertas que ocorreram na época, estavam as ruínas de San Ignacio Mini, restauradas em 1906, e a fortaleza (Pucará) do antigo povo Tllcara (1908) na Quebrada de Huamahuaca, em Jujuy, todas patrimônio da humanidade hoje.  

Ambrossetti era especialista em observar tudo o que via. Ele deixou escrito informações preciosas sobre a Colônia Militar do Iguassú. No bojo dessas informações, estava o que faziam e como viviam os moradores da colônia militar que deu início a Foz do Iguaçu. Sobre os 500 habitantes que moravam na colônia, escreveu: “…em sua maior parte não se dedicam a mais do que plantar o necessário, em vista de que seus produtos, como não têm outro mercado consumidor que não a Argentina, e como devem portanto pagar direitos fortes, não lhes convêm exportar”, registrou. 

Para Ambrossetti, a vida na colônia não era fácil e ele tinha muito respeito por seus habitantes. A Colônia Militar pode dizer-se que foi feita à força de dinheiro e do trabalho dos soldados, e como está em plena selva virgem, é necessária desmontar (derrubar o mato) e queimar para poder construir e plantar”, escreveu. Sobre a hospitalidade e civilidade dos militares da colônia, Ambrossetti destaca os seus dois guias ilustres: “Acompanhado de meus bons amigos, o diretor da Colônia, o Alferes Edmundo de Barros e o médico da mesma Dr. Benjamin Fernandes da Fonseca, duas excelentes pessoas, sumamente amáveis e ilustrados fomos visitar tudo o que havia de se ver por ali”.  

Edmundo de Barros, goiano com fortes ligações com Guarapuava, é razoavelmente conhecido na Foz do Iguaçu atual – até por ter seu nome homenageado com uma das ruas centrais da cidade que ajudou a criar. E devemos a Ambrossetti, pelo menos para este artigo, as notícias da existência do médico da colônia, Benjamin Fernandes da Fonseca 

Sergipano de Boquim, formado em medicina na Universidade da Bahia, ele foi engajado no Serviço Médico do Exército em 1891. Um ano após a formatura, ele já se encontrava em seu posto como médico para servir na colônia militar. Depois de Foz, o médico militar sergipano serviu no Rio de Janeiro, de onde foi enviado para a Guerra de Canudos, entre 1896 e 1897, no estado onde havia estudado medicina. O médico militar morreu em 1906, na cidade de Óbidos, no Pará, importante local para a defesa militar do Rio Amazonas, terra do Forte de Óbidos 

Andando pela colônia em companhia tão qualificada, Ambrossetti continuou descrevendo a base militar e o dia a dia do povoado: “Na colônia se notava bastante movimento. Aquele povoado se formando no meio da selva, tinha alguma coisas de norte-americano. Por toda parte se ouvia o som seco do machado ao ferir as árvores, o barulho trepidante finalizando com um golpe rude seguido pela queda das árvores”.  

Em seguida, ele traz detalhes da vida cotidiana na colônia a organização do trabalho: “A dotação primitiva foi de sessenta soldados e quatro oficiais mas que por várias causas, entre elas as disserções, baixas e comissões várias, etc, hoje ficou reduzido o pessoal militar a 30 soldados, um oficial e um sargento”. As dificuldades da colônia foram trazidas à atenção dos brasileiros por outros escritores e viajantes. Porém Ambrossetti revela um aspecto importante da organização interna: “Quando chegam novos soldados, se lhes recolhem o armamento, entregando-se a eles, em seu lugar, machados, facões e foices. Todos os dias saem ao trabalho, divididos em diversas esquadras, ocupando-se em revolver a terra e roçar. Entre eles há vários que conhecem diversos ofícios que aí desempenham: assim há soldados ferreiros, carpinteiros etc”.
 Quando passou pela colônia militar em sua segunda viagem a Misiones, havia um verdadeiro fervor na fronteira, onde os três países tentavam ocupar suas terras, fazer pátria e solidificar a presença nacional. No lado paraguaio, Moisés Bertoni já estava estabelecido e estava na rota da ciência dessas paragens longínquas e pouco habitadas. O número de expedições científicas, de viajantes e cientistas era grande. Os cientistas abriam as portas para que os respectivos governos decidissem como ocupar as terras. Um dos títulos originais da obra de Ambrossetti era “Viagem às Misiones (Missões) Argentinas e Brasileiras 

Essa ideia territorial de “missões” ainda resiste viva no Rio Grande do Sul. E as missões ou misiones eram terras que estavam na mira dos dois governos, que não gostavam de vê-las desocupadas e vazias. Brasil e Argentina se encontravam na foz do Iguaçu com dois projetos para o mesmo fim: ocupar efetivamente o território, fazer pátria e manter presença institucional de seus Estados. Nos dois lados, a presença militar e os futuros parques nacionais ajudaram a exercer esse papel.     

A Vila Civil 

Na época, os viajantes – quer cientistas, exploradores ou empreendedores  invejavam a Colônia Militar do Iguassú e a tinham como um bom modelo de ocupação, além de admirarem a garra e a dedicação de seus administradores. A cidadezinha já estava em formação, e o povoado civil, separado das instalações da colônia, também.  

Ambrossetti descreve a rua principal e única do povoado e já inaugura uma das primeiras críticas dignas de um observador“O povoado é formado por uma grande rua larga, que se acha povoada de um só lado, porque a frente se destina para “praça” mas como todos os moradores são pobres e as condições de edificação que exige o regulamento da Colônia são exagerados, construíram seus ranchos provisórios fora da linha (limite com a rua), dentro de seus respectivos lotes, como se fossem cozinhas, deixando para construir suas casas como manda a lei para mais adiante, quer dizer, nunca”.  

Ambrossetti conseguiu registrar uma crítica à burocracia da época ao escrever: “Se sabe que, quem aconselhou, esse regulamento, não sabia o que era fundar uma colônia com gente pobre e nessas latitudes. Segundo ele, as casas devem ter uma certa altura, teto de telhas, janelas com vidros de subir e baixar, etc,etc, como se isso fosse fácil de se conseguir e fazer-se de primeira intenção”.  

Mais adiante ele prosseguiu: “A Leitura desse regulamento me traz à mente muitos outros que se fazem e se sancionam por todas partes, bonitos, patrióticos e “demais”, teoricamente, mas que sofrem da doença de terem sido ditados nos gabinetes, sem conhecer o terreno e nem haver consultado as verdadeiras conveniências e naturalmente impossível de fazê-los cumprir na prática. Disso surgem tropeços a cada passo, e em vez de adiantar, segundo a mente dos iniciadores, as consequências são atrasos em cima de atrasos com grave prejuízo para o progresso da localidade que tem de aguentá-los”. 
 Embora a vida na colônia fosse difícil, como atestam mais tarde diversos escritores que passaram por ela, alguns deles também funcionários públicos, a colônia militar dos últimos anos do século 19 e nos primeiros anos do século 20 surpreenderia qualquer visitante moderno – caso fosse possível fazer essa viagem no tempo. Seria possível falar de um engarrafamento de expedições científicas que ocorreram na primitiva região das Três Fronteiras.  

A primeira expedição brasileira da Comissão Estratégica chegou à foz do Rio Iguaçu em 1888. Mesmo ano em que o cientista, suíço de nascimento, Moisés Bertoni se estabelecia em Yaguarasapá, Paraguai, após tentativa falida de se criar raízes em Santa Ana, no lado argentino do Rio Paraná. Sete anos mais tarde, Bertoni se estabeleceu, de vez, em um local um pouco abaixo da foz do Rio Monday, Paraguai, e quilômetros rio abaixo da Colônia Militar do Iguassúno lugar batizado como Puerto Bertoni. 

Na mudança de Yaguarasapá para Puerto Bertoni, em 1893, Moisés Bertoni levou na bagagem instrumentos científicos, mudas, plantas, sementes que havia trazido da Suíça, além de diferentes coleções científicas. O transporte do material foi feito na modalidade “carona” a bordo de barcos de famosas expedições, como a Expedição Científica Coletora, do botânico argentino-alemão Gustav Niederlein, a serviço do Ministério da Agricultura da Argentina, que se dirigiam até próximo às cataratas de Guaíra.  

 Em um trecho da expedição de Nierderlein, por exemplo, entre Puerto Bertoni e região de Guaíra, o barco fez uma parada na Colônia Militar do Iguassú para, entre outras coisas, saudar o antropólogo argentino Juan Bautista Ambrossetti, que era hóspede científico da colônia militar brasileira na pessoa do comandante capitão Edmundo de Barros e do médico militar Luiz Gomes, substituto do Dr. Benjamin Fernandes da Fonseca, enviado para Canudos e Óbidos. 

 Para ilustrar o bom relacionamento das expedições dos cientistas entre eles e a cooperação na região trinacional na época, Ambrosseti escreve sobre Bertoni em sua “A terceira Viagem a Missões” (El Tercer Viaje a Misiones) 

 “Ir ao Alto Paraná com uma missão como a nossa, e não visitar o sábio doutor, não se compreende, e só por uma injustificável distração ou por um desconhecimento completo de sua obra progressista naquela região, poderia alguém se privar do prazer de apertar sua mão calejada pelo trabalho e de ouvir de seus lábios o grande número de dados úteis e observações interessantes que ele levou a cabo, no meio de sua vida de pioneiro nas selvas missioneras (…). Nos trasladamos à sua casa situada em uma pequena altura e rodeada de bananas e plantações de toda espécie”. 

As grandes expedições eram parte do contexto da época. Os três países, que se encontram nas Três Fronteiras, procuravam maneiras de promover a ocupação das terras e a divulgação das riquezas de seus respectivos países; e nada melhor para fazer isso que por meio dos homens de ciência da época. As expedições serviam tanto para aumentar o conhecimento científico do território como para atrair investidores. Para isso, as expedições tinham como fim “reunir produtos naturais e industriais, especialmente exemplares da flora e da fauna”, para exibição em grandes feiras ou exposições mundiais.  

A Argentina liderava essas expedições, das quais participavam cientistas estrangeiros. No caso da Expedição Niederlein, o material coletado seria exposto na Feira Mundial de Chicago em 1893. Outras expedições coletaram material para a Exposição Panamericana de Buffalo, Nova York, em 1901.  

 Duas coisas aconteceram na exposição de Buffalo. A primeira foi a vitória da corrente alternada para distribuição de energia elétrica. Os milhões de visitantes puderam ver o enorme pavilhão da feira iluminado com a eletricidade produzida a cerca de 19 quilômetros de distância nas Cataratas de Niágara. A segunda, e para a Colônia Militar do Iguassú a mais triste, foi que as Cataratas do Iguaçu foram mostradas ao mundo pela primeira vez nessfeira. Triste para o capitão Edmundo de Barros, comandante da colônia, que em 1897 acabara de fazer um levantamento das Cataratas do Iguaçu, produzindo inclusive um dos primeiros mapas detalhados das quedas. Um dos primeiros porque há notícias de outros em museus argentinos. Um deles de 1892, assinado por Edmundo de Barros e em posse de museu argentino. O Brasil também estava na Feira de Buffalo e lá descobriu sobre a existência das Cataratas.  

 As notícias, naquela época, andavam devagar. Mas quando finalmente chegou à Colônia Militar do Iguassú, algumas pessoas não gostaram. Entre elas o comandante da colônia, Edmundo de Barros, que se sentiu insultado pelo fato das Cataratas terem sido divulgadas pela primeira vez no mundo pela Argentina e os jornais da época terem anunciado que as maiores cataratas do mundo estavam na Argentina.  Para o militar, diretor da colônia, o capitão Edmundo de Barros, o golpe foi muito grande.  

 O Brasil, na feira, concentrava-se em divulgar o potencial da mineração no país. Antes de morrer, no Rio de Janeiro, em 1905, Edmundo Xavier de Barros publicou artigos, fez palestras e protestou contra o descaso de negociadores brasileiros em questões como a demarcação de certas áreas da fronteira em relação às Cataratas, que não saiu do modo que os pioneiros da Colônia Militar do Iguassú queriam.  

  Nem a paz, nem o fim! A vida, a vida apenas
É tudo que encontrei e é tudo que me espera!

O ouro, a fama, o prazer e as ilusões terrenas
São lodo, fumo e cinza ao fundo da cratera.

Esvaiu-se a vaidade!… Os júbilos e as penas,
A alegria que exalta e a dor que regenera,

Em cenário diverso aprimorando as cenas,
Continuam, porém, vibrando noutra esfera.

Morte, desvenda à Terra os planos que descobres,
Fala de tua luz aos mais vis e aos mais nobres,
Renova o coração do mundo impenitente!

Dize aos homens sem Deus, nos círculos escuros,
Que além do gelo atroz que te reveste os muros,
Há vida… sempre a vida.. a vida eternamente…
 

*Os relatos do antropólogo Juan Bautista Ambrossetti foram aqui reproduzidos da forma original como ele os escreveu. 

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