“A primeira coisa que vou fazer quando a fronteira reabrir é comer uma pizza, tomar uma cervejinha e fazer uma compra no supermercado de Foz do Iguaçu,” comenta o empresário e proprietário do restaurante Aqva de Puerto Iguazú, Jorge Antonio, sobre a reabertura da fronteira com a Argentina.

Ele, assim como a maioria dos iguazuenses não veem a hora da fronteira com o Brasil reabrir para poder voltar à rotina agitada da fronteira que existia antes da ponte ser fechada. “Sentimos muita saudade de Foz e também de ter nossos vizinhos de nosso país irmão passeando por nosso amado Puerto Iguazú, além da liberdade de dar um passeio como costumávamos fazer em Foz do Iguaçu todos os fins de semana”, destaca Griselda Schneider, proprietária do Restaurante A Piacere e Santa Cervejaria.

Griselda- preoprietária do restaurante A Piacere
Griselda Schneider, proprietária do Restaurante A Piacere e Santa Cervejaria.

“Puerto Iguazú tem uma história intimamente ligada à vida de fronteira, com laços entre os habitantes de países que transcendem o meramente comercial. Há uma integração afetiva, cultural e em muitos casos familiar que foi modificada pelo fechamento da fronteira. Muitos amigos e familiares ficaram ‘do outro lado’, o que mostra que as nossas fronteiras, mais do que nos separar, sempre nos tornaram irmãs. Do ponto de vista comercial, temos uma forte ligação com o setor do turismo de Foz, somos parte integrante de várias associações e mantemos uma relação comercial e de amizade com agentes de viagens, hoteleiros, guias turísticos, atrações turísticas, entre outros. Essa relação diária que nos fortalece tanto quanto um destino integrado faz muita falta”, complementa María Taratuty, diretora de comunicação do Grupo London Supply.

Maria Taratuty - London Supply Group
María Taratuty, diretora de comunicação do Grupo London Supply.

Nós aqui da 100fronteiras também compartilhamos desse sentimento. O que fica é a saudade dos nossos hermanos argentinos, das compras na feirinha, dos passeios nos hotéis de Puerto Iguazú e também nas Cataratas.

Do lado de lá da fronteira, os empresários sentem essa saudade de forma mais intensa. Isso porque o isolamento com o lado brasileiro e paraguaio impactou diretamente o setor econômico de Puerto Iguazú.

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Aduana da Argentina. (Foto: Lilian Grellmann/100fronteiras)

“O que mais sinto falta é do trabalho com o brasileiro, do movimento econômico que caiu muito. Sinto falta de Foz do Iguaçu, moro a mais de 30 anos aqui na região e Foz faz parte da nossa vida. Foz tem muita coisa que Puerto Iguazú não tem. E assim como tem coisas que só tem em Foz, tem coisas que só tem aqui em Puerto Iguazú, porque as duas cidades se complementam. A fronteira não existe com a ponte fechada”, frisa Jorge Antonio.

Da mesma forma, a gerente-geral do Gran Meliá Iguazú, Ana Goti, também sente falta de receber os brasileiros no hotel. “Depois de estar 14 anos fora da Argentina, voltei ao país em outubro do ano passado, para viver algo que nunca vivi na tríplice fronteira, mas compartilho dos comentários de todos os meus colaboradores que sentem saudades da interculturalidade da fronteira, dos sabores, a música e o intercâmbio cultural em todas as suas esferas”.

Quando a fronteira irá reabrir?

Após um ano e quatro meses desde aquele dia 16 de março de 2020 quando a pandemia de coronavírus chegou à fronteira, ainda não há uma data exata para que a reabertura aconteça. Ao longo dos meses a 100fronteiras buscou saber quando isso seria possível, mas muitos prazos já passaram e nada.

Há muitas especulações sobre quando a fronteira irá reabrir para moradores locais e turistas, como agosto, setembro, fim de ano… mas nada de concreto. Atualmente a ponte está liberada apenas para transporte de cargas.

Quem é da região sabe a falta que cruzar essa ponte faz. Muitas pessoas iam para o país vizinho para passear, fazer compras, almoçar ou jantar em um dos inúmeros restaurantes de Puerto Iguazú e tinha aquelas pessoas que iam somente até a divisa das fronteiras para fazer a tradicional foto “pisando” nos dois países.

Ponte da Fraternidade
Limite entre os dois países. (Foto: Lilian Grellmann/100fronteiras)

O jornal La Nacion publicou recentemente uma reportagem sobre a fronteira fechada e destacou dados de 2018 da Direção Nacional de Migração, onde a passagem pela Ponte Tancredo Neves era a mais importante do país argentino, com 11,24 milhões de pessoas que a atravessavam por ano, um movimento que era resultado do turismo e comércio. Agora, praticamente vazia, a ansiedade por voltar a cruzar a fronteira é grande. No entanto, os iguazuenses reforçam que a segurança sanitária é essencial para uma reabertura segura.

“Como todos os trabalhadores do setor do turismo da região, estamos ansiosos pela abertura da fronteira desde que a evolução da pandemia o permita e, principalmente, que haja protocolos de saúde que garantam a máxima segurança. Modelos como o que existe atualmente na comunidade europeia que facilitam a mobilidade das pessoas com as duas doses da vacina aplicadas e com testes negativos antes da viagem, se aplicadas sob estrita supervisão e sem exceções, poderiam garantir a passagem segura entre as fronteiras, em face de energizar o setor”, destaca Ana.

Ana Goti - Gran Meliá Iguazu
Ana Goti, gerente-geral do Gran Meilá Iguazú.

Jorge ressalta que o setor econômico da cidade depende muito dessa reabertura. “Somos a favor da abertura da ponte com o Brasil. Com certeza o momento econômico da cidade depende a maioria do Brasil. Sou da área da gastronomia e faço parte do Visit Iguassu em Foz onde trabalhamos muito de forma conjunta com a divulgação do destino integrado, o destino trinacional. Trabalhamos como uma unidade no produto turístico e a abertura da fronteira para nós é fundamental. Principalmente a gastronomia que depende muito do Brasil, das pessoas das cidades vizinhas também que vinham muito para cá. Assim como os grandes eventos que tem em Foz e da qual as pessoas vinham muito para a Argentina para passear, visitar os restaurantes e pontos turísticos como as Cataratas. Temos uma dependência muito grande do Brasil”.  

Jorge Antonio - restaurante Aqva
Jorge Antonio, proprietário do restaurante Aqva.

Já María comenta que a “abertura da fronteira representaria uma grande satisfação porque implicaria que os níveis necessários de imunização de nossas populações tenham sido alcançados e que os diferentes aspectos sanitários sejam controlados em ambos os países. Além disso, para o London Supply Group representaria o retorno à atividade comercial na área, já que nosso Duty Free Shop Puerto Iguazú está fechado há um ano e meio. A primeira coisa que farei é viajar a Puerto Iguazú, cumprimentar nossos colaboradores e pessoalmente abrir as portas de nosso Duty Free Shop Puerto Iguazú e com grande entusiasmo retomar as operações de nossa loja, com a alegria de finalmente poder responder a os milhares de clientes que nos contataram durante este período, aguardando o tão esperado retorno”.

“Estamos ansiosos pela abertura da fronteira, acreditamos que devemos aprender a conviver com este vírus e reativar as indústrias que geram fronteiras abertas. No nosso caso, turismo. Sentimos falta de receber hóspedes brasileiros e poder entrar no Brasil para visitar nossos clientes e parceiros. E a primeira coisa que vamos fazer quando a fronteira reabrir é retomar alianças com clientes e parceiros, gerar negócios para os dois países, como sempre fizemos, em benefício do turismo. Promovendo o destino Puerto Iguazú e o resto da Argentina”, declara Rocio Gonzalez Oliver, gerente comercial do Loi Suites Hoteles.

Rocio - Loi Suites
Rocio Gonzalez Oliver, gerente comercial do Loi Suites Hoteles.

No entanto, enquanto a fronteira com Argentina segue interrompida, nós do lado de cá e nossos hermanos do lado de lá seguimos nos cuidando e torcendo para que em breve tudo melhore e possamos nos reencontrar para desfrutar a cultura de Puerto Iguazú e eles a cultura de Foz do Iguaçu. Porque realmente a fronteira não existe com a ponte fechada.

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Formada em Jornalismo na UDC e pós-graduada em Relações Internacionais Contemporâneas na Unila, atualmente é jornalista da 100fronteiras e recentemente conquistou pela 100fronteiras o primeiro lugar no 1º Prêmio Faciap de Jornalismo.

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