Nos últimos dias temos visto que os casos de Covid-19 aumentaram – e muito – em quase todos os estados brasileiros. Com mais de duas mil mortes por dia, é quase impossível não conhecermos algum amigo, conhecido ou familiar que teve complicações pelo coronavírus.

Até o momento, foram detectadas duas variantes no estado do Paraná, a variante do Reino Unido e a brasileira – a P1.

Em busca de mais informações para os nossos leitores, fomos conversar com a médica Sonia Raboni, que é chefe do Serviço de Infectologia do Complexo Hospital de Clínicas da UFPR e Investigadora Principal do estudo Profiscov/Paraná.

A infectologista esclareceu diversas dúvidas sobre a nova cepa. Confira e ajude a disseminar informações corretas.

Jornalista Annie Grellmann e Thaynara Pagno entrevistam a infectologista Sonia Raboni via chamada de vídeo.
Jornalista Annie Grellmann e Thaynara Pagno entrevistam a infectologista Sonia Raboni via chamada de vídeo.

100F: São quantas novas variantes da covid-19, que estão de fato circulando pelo Paraná/Brasil?

Sonia Raboni: Nó Paraná conseguimos identificar a variante do Reino Unido, e a Brasileira, a P1 que foi descrita primeiro nos viajantes japoneses que vieram a Manaus, e hoje é a mais preocupante pelo seu rápido contágio, existem alguns estudos que ela pode ter aparecido em novembro, em dezembro, naquela região já tinha uma grande quantidade de pessoas contaminadas. Nos meses seguintes, foi a variante predominante na região do Amazonas. Já a variante do Reino Unido foi detectada no Paraná, em pessoas que tiveram contato com pessoas que vieram da Inglaterra, ela ainda não se demonstrou como uma variante que está se disseminando.

100f: Você acredita que esse aumento dos casos tem relação com a nova variante ou que é por conta do relaxamento das pessoas? 

Sonia Raboni: São as duas coisas juntas, a variante está associada a um escape da resposta imune, isso foi uma das coisas que se demonstrou em Manaus, onde teve uma onda muito grande de infecções, existem alguns estudos lá, que 70% das pessoas já teriam feito contato com a doença na primeira onda, e que elas já tinham anticorpos e não se esperava uma outra onda com essa intensidade como aconteceu recentemente, então eles acham que isso foi por conta da entrada da nova variante que se disseminou, escapou da resposta imune, ela causa muito mais infecções. A gente tem observado que as pessoas contaminadas por ela têm uma carga viral maior, pelo menos 10 vezes maior do que quem foi infectado com as variantes anteriores. Associado a isso, temos uma população que não adere às medidas de prevenção, independente da fase que estamos, observamos que as pessoas continuam sendo refratárias ao uso de máscara, continuam aglomerando, saindo nas ruas sem necessidade. Assim temos duas situações extremamente favoráveis ao vírus, ele tem uma capacidade replicativa maior, e temos um grande número de pessoas suscetíveis circulando sem nenhuma proteção.  

100F: Eles são mais acessíveis a jovens e crianças?

Sonia Raboni: Sim, porém não sabemos se isso tem influência da nova variante por ser muito mais infectante. Sabemos que ela tem vantagem em termos de disseminação, mas ainda não conseguimos demonstrar se ela é mais violenta.

100F: Porque as novas variantes tem se mostrado mais fatal nos grupos mais jovens?

Sonia Raboni: Estamos observando que a doença está atingindo pessoas mais jovens, eles estão precisando vir ao hospital, e o jovem quando vem ao hospital e precisa de um leito de UTI, ele tem o tempo maior de UTI para recuperação. De maneira simples: a gente interna um paciente de 90 anos, ele tem várias doenças de base, com uma infecção por covid, as chances de ele ir a óbito são muito grandes, e o óbito acaba sendo um pouco mais rápido por conta das complicações dessa doença. Já o jovem, quando ele vai para a UTI, a média de internamento dele, está ficando em torno de 15 a 20 dias, então ele ocupa um leito por um tempo muito maior, tem uma recuperação melhor, mas ainda com uma mortalidade altíssima, todo paciente que vai para a UTI tem a chance de óbito muito grande, e por um tempo de internamento muito grande. Então a chegada de paciente mais jovem contribui para a falta de leitos. Não sabemos se isso tem influência da nova variante por ser muito mais infectante, sabemos que ela tem vantagem em termo de disseminação, mas ainda não conseguimos demonstrar se ela é mais violenta. Em São Paulo, como eles estão com um número maior de pessoas vacinadas, acha que temos visto mais jovens pelo fato dos idosos estarem recebendo a vacina, eles já estiveram infectados na primeira onda, e agora a doença está se espalhando dentro de um grupo mais jovem, que aliás, não colabora com as medidas de prevenção. 

100F: Por que, de onde vem essa nova variante?

Sonia Raboni: Os vírus vão sofrendo as alterações conforme as pessoas vão se contaminando, quanto mais pessoas estiverem se infectando, mais mutações podem acontecer. Uma maneira de controlarmos o aparecimento de variantes, é diminuir o número de pessoas infectadas. 

100F: Ela realmente se espalha mais rápido?

Sonia Raboni: Sim, ela tem esse potencial de uma fácil transmissão, caracterizada por sua mutação, ela tem um escape da resposta imune do nosso organismo.

100F: Os “lockdowns” nos fins de semana tem alguma eficácia no avanço da covid-19?

Sonia Raboni: Não, nenhuma. Esses períodos muito curtos, não só fim de semana, pois fim de semana já tem uma menor circulação de pessoas, nenhum país demonstrou que medidas restritivas de uma semana ou três dias tem alguma eficácia, acho que isso até leva as pessoas a não acreditarem nas medidas restritivas. Uma semana não é o período da incubação da doença, a incubação leva duas semanas. Medidas curtas não irão reduzir os casos. Precisamos de medidas mais duras, observar a diminuição dos casos, uma reabertura gradual. É preciso classificar o que é essencial e não essencial, sem depender da força política de cada serviço.

100F: Há risco dos números de casos dobrarem? A ponto da saúde brasileira entrar em colapso e começar a faltar equipamentos ou oxigênio?

Sonia Raboni: Sim, nós corremos esse risco, existem algumas projeções que são bastante preocupantes, considerando o pior cenário possível, as coisas podem ficar ainda mais complicadas, porque o Brasil tem uma diversidade muito grande em questão de acesso, tanto econômico quanto saúde, quando tínhamos uma doença maior, como aconteceu no Amazonas, os outros estados ainda estavam conseguindo controlar melhor os números de infecções, assim um conseguia dar suporte ao outro, mas agora a grande maioria deles, estão em uma fase crescente dos casos, então não podemos contar muito com ajudas, como uma distribuição equitativa de equipamentos e dinheiro para atenção a toda a população. Então essa situação de muitas pessoas doentes em diversos estados é o que mais tem preocupado, onde que vamos concentrar as nossas forças? A gente vai ter medicação para todos os estados que precisam ao mesmo tempo? 

100F: Existe algum estudo que estime quantas variantes podem surgir neste tipo de doença?

Sonia Raboni: Não, não temos pelo seguinte: entra de novo as medidas de restrição e diminuição de infecção, sempre que tiver um vírus replicando, tem a chance de ter mutantes, então a maneira de prevenir vírus mutante é diminuir a replicação. Como diminuir a replicação viral? É diminuindo o número de pessoas infectadas. Se eu tenho uma pessoa infectada, eu tenho uma taxa de mutação, se eu tenho 100 pessoas infectadas, eu tenho a taxa de mutação muito maior, então é extremamente importante as pessoas saberem que, mesmo com uma vacina eficaz, ela vai ser melhor e realmente impedir o aparecimento desses mutantes desde que a população faça as medidas de restrição e diminua a taxa de transmissão da doença. É importante lembrar que nenhuma vacina se mostrou eficaz para diminuir a transmissibilidade. Então a pessoa, mesmo vacinada deve fazer a lavagens de mãos, usar álcool em gel, máscara e evitar aglomerações porque é preciso reduzir a taxa de transmissão, porque se não reduzir, o vírus vai replicar e sofrer mutações perigosas. 

100F: Como o vírus se adapta ao organismo e sofre as alterações?

Sonia Raboni: No momento que ele começa a replicar ele vai acumulando mutações ou deleções, então ele pode ter uma alteração na sua composição de aminoácido ou não, ele pode ter um pedaço dele que se perde, uma deleção. Existe sempre a preocupação que em sua evolução viral, é se ele encontra algumas mutações que são de preocupação, que são variantes que podem estar associadas a uma maior transmissibilidade ou uma maior gravidade de doença. 

100F: Como identificam o surgimento de novas variantes?

Sonia Raboni: É determinada se a variante é de preocupação ou não, analisando o local do vírus onde ocorre mutações, sempre que as variantes apresentam mutação na região da espícula, que é a região mais externa do vírus, onde faz a ligação do receptor celular para ele poder infectar a célula e é a região onde os anticorpos que te protegem vão se ligar e impedir o vírus de se propagar, os especialistas sempre ficam mais atentos, e além desse olhar genético, eles cuidam onde a variante apareceu e como está o comportamento da doença naquele local. Então observando os dados clínicos, epidemiológicos e genéticos, vamos classificando se são variantes importantes (de risco) ou não. 

100F: Tem algum estudo de quais cidades estão circulando essa variante? 

Sonia Raboni: Ainda não, a gente tem uma rede estadual que está fazendo o sequenciamento, eles ficam no interior do Paraná. Estão fazendo amostras de diferentes regiões do estado, o último relato foi com amostras do ano passado. 

100F: A vacina que está disponível é eficaz contra a nova variante?

Sonia Raboni: Tem alguns estudos em andamento, mas ainda nada conclusivo, um que está sendo feito pelo grupo da USP, têm observado que há uma preocupação de que a vacina não cubra realmente de uma forma eficaz contra essas novas variantes, e principalmente a P1 que está se disseminando no Brasil. A gente ainda não tem uma comprovação disso, porque ainda não se conhecem todos os aspectos da resposta imune a essa infecção, a gente sabe de pessoas que foram infectadas e que dosa anticorpos, tendo baixos títulos deles, mas mesmo assim, essa pessoa acaba não se infectando novamente, ou se infecta não faz doença grave. Então não é só título de anticorpos de proteger, deve ter outros mecanismos que protegem mas que ainda não temos como mensurar, então não sabemos completamente o quanto que a vacina faz em termo de produção de anticorpos, a sua duração, e se ele faz só produção de anticorpos ou se ela também atua em outros mecanismos imunes que consigam controlar a doença. Estudos fora do Brasil, observaram que, apesar de ter baixo título de anticorpos para algumas vacinas, as pessoas ainda ficaram protegidas. Se isso vai acontecer com essa cepa do Brasil especificamente, não se sabe, dependemos desses estudos que estão sendo realizados. Um grupo de Manaus está fazendo um estudo, e o grupo da USP está acompanhando as pessoas vacinadas, vendo o tipo de anticorpo e avaliando se estão se infectando ou não. 

100F: Por fim, qual mensagem gostaria de deixar aos nossos leitores?

Sonia Raboni: Quem está dentro do hospital, vê muitos casos graves, extrema dificuldade em conseguir leitos, pacientes isolados, deprimidos, distantes de suas famílias, com medo. Não temos muitas alternativas para aumentar a nossa capacidade de atendimento, nossa equipe está esgotada, em números em capacidade física para atender mais pacientes. As pessoas tem que realmente pensar em sua família, na proteção de todos, o momento é difícil, temos um impacto econômico muito grande, o mundo todo está tendo esse impacto, precisamos ter paciência, porque isso vai passar, mas temos que tentar fazer com que todos tenham oportunidade de sobreviver, passar por isso e continuar a sua vida, eu não tenho o direito de decidir quem vai morrer e viver e se as pessoas não se conscientizarem é isso que elas estão dizendo: você não é importante. No momento que saio sem máscara, na hora que não uso uma medida adequada, eu estou dizendo que a sua vida não é importante para mim, então todos precisamos pensar nisso na hora de seguir as orientações de diminuir a aglomeração, usar máscara, pois toda vida é importante. 

Sonia Raboni, infectologista, chefe do Serviço de Infectologia do Complexo Hospital de Clínicas da UFPR e Investigadora Principal do estudo Profiscov/ Paraná. Sem tabelas.
Sonia Raboni possui graduação em Medicina pela Universidade Federal do Paraná (1989), mestrado em Medicina Interna (1999) e doutorado em Biologia Celular e Molecular pela Universidade Federal do Paraná (2006). Estágio na Universitty of California San Diego – Stein Research Institute, EUA (2010) e Pós Doutorado no Centro Nacional de Microbiologia, em Virologia Molecular do Instituto de Salud Carlos III, Espanha (2011). É bolsista de Produtividade em Desenvolvimento Tecnológico do CNPq. Atualmente é Professor Associado da disciplina de Infectologia, médico do laboratório de virologia e chefe da Unidade de Infectologia do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná. Pesquisador da UFPR e orienta alunos de mestrado e doutorado dos Programas de Pós-graduação em Medicina Interna e Ciências da Saúde e do Programa de Pós-graduação em Microbiologia, Parasitologia e Patologia da UFPR. Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Doenças Infecciosas e Parasitárias, atuando principalmente nos seguintes temas: virologia clínica, aids, infecção em imunossuprimido, vírus emergentes e diagnóstico laboratorial (virologia).

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