Esse discurso é relativamente compreensível, considerando que a menos de um século ainda utilizávamos métodos rigorosos de punição física nas crianças como estratégia de aprendizagem, tanto nos lares, como nas escolas.

Durante muito tempo, a punição física foi equivocadamente associada à ideia de disciplina e formação de caráter. No entanto, conforme ampliam-se os estudos científicos acerca dos processos de aprendizagem, cada vez mais constata-se que essa pedagogia é ultrapassada, podendo, inclusive, gerar danos ao desenvolvimento cognitivo, emocional e físico.

A infância é o momento em que a criança determina significado às suas emoções, relações e comportamentos. Nessa fase, a criança possui necessidades emocionais básicas, e espera-se que tais necessidades sejam atendidas e correspondidas de maneira adequada. Os pais ou responsáveis são as figuras de maior representatividade, considerados provedores de afetividade, proteção e conhecimento.

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Foto: Reprodução internet.

Como é construído o comportamento da criança?

O comportamento da criança é moldado a partir do temperamento, do contexto familiar e das experiências psicossociais. O temperamento refere-se à tendência em sentir determinadas emoções e humores. O contexto familiar é como a família interage entre si. A questão psicossocial envolve as interações e experiências da criança, mesmo fora do ambiente familiar.

As experiências vivenciadas na infância são facilmente internalizadas pela criança, uma vez que esse é o período de formação biológica, psicológica e social. Episódios marcantes de violência física, por exemplo, podem repercutir ao longo da vida, às vezes de maneira inconsciente. É comum que a pessoa agredida reproduza o comportamento, assim como o aprendeu.

Os comportamentos dos pais são os maiores exemplos que a criança pode ter, pois constituem as bases essenciais de sua compreensão de mundo e o modelo de adulto ideal. Também são as autoridades que ensinarão os limites a serem respeitados. Por conta disso, muito do comportamento dos filhos possui influência dos pais.

É importante lembrar que em casos de comportamentos excessivamente agressivos e/ou peculiares, que chamem a atenção dos pais, deve-se, primeiramente, buscar orientação profissional especializada. A avaliação é indispensável nos casos em que se perceba comportamentos exacerbados de agressividade.

De que forma a agressão física pode prejudicar?

Segundo Young (2010), estudos com animais e seres humanos comprovam que a formação do cérebro é mais dinâmica durante os primeiros anos da vida, podendo ser significativamente afetada pela qualidade da educação ou dos estímulos recebidos ao longo do desenvolvimento. Vale lembrar que não apenas a agressão física interfere negativamente, mas também a agressão psicológica, gestual e a negligência.

Dependendo da frequência e intensidade da agressão, a criança pode vir a apresentar baixa autoestima, insegurança, fobias, comportamentos depressivos, agressividade, aversão ao agressor e outros. Essas sensações comprometem o vínculo parental e podem causar problemas no desenvolvimento da personalidade.

O psicólogo norte-americano chamado Skinner, criador da Análise do Comportamento, mostrava-se em oposição à punição corporal, explicando que tal ato possui um efeito imediato, mas gera efeitos nocivos para quem o recebe. Além disso, percebeu que o efeito da punição gera uma supressão temporária, mas não reduz a frequência do comportamento.

Mas afinal, qual a melhor metodologia para educar os filhos?

A nova perspectiva de correção se direciona aos processos afetivos, na ação comunicativa e em propostas positivas. Esta metodologia busca validar o outro, seus acertos, ganhos e avanços, respeitando a criança enquanto um ser em condições particulares de desenvolvimento (LONGO, 2012, pg. 93).

O diálogo sempre é a melhor resposta quando o assunto é a educação dos filhos. Conversar com a criança, educando-a sobre a causa e o efeito de seus atos, contribui para que ela adquira um entendimento muito mais profundo de seus comportamentos. Isso acontece por meio de um diálogo reflexivo, acolhedor e assertivo.

Ademais, o comportamento dos pais também será avaliado pela criança. Quando ela identifica uma incoerência entre o ensinamento dos pais e sua conduta, isso a faz questionar-se sobre a validade de tal ensino, colocando-o em dúvida. A postura dos pais deve expressar disciplina, afeto e exemplo para os seus filhos.

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Referência Bibliográfica

LONGO, C. S. Como e por que educar sem bater: orientação aos pais sobre a educação dos filhos. Dourados: Ed. UFFD, 2012.

YOUNG, M. E. Do Desenvolvimento da primeira infância ao desenvolvimento humano: investindo no futuro de nossas crianças. Tradução Magda Lopes. São Paulo: Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, 2010.

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psicologo-foz-Bruno-Bizzotto

Psicólogo Clínico e Escritor
Cursa especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental (PUC-RS), Terapia do Esquema (IPTC) e Análise do Comportamento Aplicada (Rhema).

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3 Comentários

  1. Parabéns pelo texto bruno! Muito bom! Esse é um tema muito importante e super necessário de se discutir. Na correria do dia a dia não paramos para perceber o quanto nossas ações influenciam psicologicamente nas crianças, principalmente as que ainda estão em processo de formação. A violência nunca é a solução! Dialoguem com seus filhos!

  2. Oi, Ana. Tudo bem? Exatamente, nossas ações impactam diretamente no comportamento dos filhos. Não é uma tarefa simples, mas é muito importante refletirmos a respeito. Agradeço o carinho.

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