ASMR e os vídeos que ajudam a relaxar

263

Por: Patrícia Buche

Fotos: divulgação

Nas últimas três edições da revista produzimos uma série especial “Saúde Mental”, que tratou da Síndrome do Pensamento Acelerado, ansiedade e depressão, respectivamente. Agora quero falar para você sobre um assunto que está bastante em alta no momento e que usa a internet e a rede social YouTube para o bem da nossa mente.

Mas, antes de continuar a ler a matéria, pegue seu celular e digite no YouTube “ASMR: bem delicadinho”. Coloque seus fones de ouvido e solte o play, porque agora você vai relaxar lendo esta matéria que preparei. Ah, não durma antes de terminar de ler, por favor!

Afinal, o que é ASMR?

Você deve conhecer alguém que tem dificuldades para dormir e costuma procurar no Google coisas como som de chuva, certo? Então, a ASMR, que é considerada atualmente o “orgasmo cerebral”, significa Autonomous Sensory Meridian Response (Resposta Sensorial Autônoma do Meridiano) e caiu no gosto das pessoas que buscam diminuir a ansiedade e combater a insônia. Ao assistir a esses vídeos, com estímulos visuais e auditivos, as pessoas passam a ter reações físicas no corpo, como arrepios e formigamento, levando-as a um estado de relaxamento.

 

Box: Foi em 2015, nos Estados Unidos, que esse tipo de vídeo começou a fazer sucesso. De acordo com o Google Trends, as buscas no YouTube sobre ASMR chegaram a 13 milhões de vídeos, resultando em mais que o dobro de janeiro de 2018 a janeiro de 2019. Já o Instagram registrou mais de cinco milhões de vídeos, colocando a ASMR como uma das grandes tendências de 2018 na rede social.

 

Box: Um estudo da Universidade Swansea, no Reino Unido, entrevistou 475 pessoas que assistiam a vídeos de ASMR e revela os seguintes resultados:

Relaxamento (98%)

Promoção do sono (82%)

Diminuição do estresse (70%)

Ainda de acordo com a pesquisa britânica, os gatilhos preferidos pelos adeptos são:

Sussurros (75%)

Atenção pessoal (69%)

Sons nítidos (bater as unhas em objetos, arranhar etc.) (64%)

Sons vagarosos (53%)

Sons repetitivos (36%)

Sorriso (13%)

Barulho de avião (3%)

Barulho de aspirador de pó (2%)

Risada (2%)

 

Então imagine uma pessoa em frente à câmera fazendo pequenos movimentos repetitivos com o uso de objetos como pincéis e potes de plástico, tudo acompanhando de sussurros quase inaudíveis. Imaginou? Bom, isso é a ASMR, e para saber se os vídeos realmente têm poder sobre a nossa mente eu fiz o teste.

Apesar de não ter problemas de insônia, assisti a um dos vídeos no canal “Sweet Carol”, que é o mais famoso do Brasil neste assunto, e senti muitas das sensações relatadas acima. O vídeo tinha duração de 18 minutos, e o foco estava no rosto dela, o que deu uma sensação de proximidade e intimidade. Logo no início, a voz suave e sussurrada da jovem foi mantendo-me concentrada. Ela foi conversando e direcionando ao relaxamento. Logo o meu olho começou a pesar e arder, e meu corpo entrou em estado de relaxamento. Os suaves toques que ela fazia nos objetos próximos ao microfone iam desligando o meu cérebro.

O ápice foi quando ela passou um pincel de maquiagem na tela do vídeo, o que fez meus olhos fecharem involuntariamente. Só não dormi por completo pois estava sentada em minha cadeira de trabalho. Isso despertou em mim a dúvida sobre a eficácia desses vídeos no combate à insônia. Então entrei em contato com a doutora em Psicologia pela USP Nazaré de Oliveira Almeida, e ela me explicou que isso acontece porque foi ativada a rede neural do relaxamento em meu cérebro.

Apesar de ser popularmente conhecidos, não há comprovações científicas sobre a sua eficácia. Isso porque os vídeos de ASMR não interferem nos mecanismos fisiológicos cerebrais de quem tem insônia. “O nosso cérebro permanece ativo mesmo quando não estamos realizando tarefas. Ele processa os assuntos pendentes, armazena na memória, planeja e tira conclusões acerca de nós mesmos e do mundo. Este estado é chamado de Rede de Modo Padrão (Default Mode Network – DMN). Paradoxalmente, é principalmente neste estado, quando estamos ‘sem fazer nada’, que ruminamos e desenvolvemos ansiedade, depressão ou estresse. A partir destes achados, os estudos conseguiram explicar os efeitos calmantes de muitas atividades; por exemplo, a meditação e a arte. Os principais efeitos neurais destas atividades estão relacionados com uma menor ‘conectividade funcional’, ou seja, como se esta Rede de Modo Padrão se desligasse e ligasse outra conexão, esta sim promotora de calma e bem-estar. Trata-se da conexão de regiões; por exemplo, córtex frontal e temporal, bem como o sistema límbico”, explica a Dra. Nazaré.

 

Box: Para se construir evidência científica em saúde, usa-se uma metodologia árdua chamada metanálise. Ela é um tipo de análise estatística rigorosa de vários estudos com metodologias confiáveis. Várias características de uma metanálise a tornam confiáveis como evidência científica, mas uma das mais importantes é que ela é feita por um grupo de pesquisadores que não tem interesse de provar nada a respeito do objeto de estudo. Nesse sentido, várias abordagens em saúde passam por estudos desse tipo e não apresentam evidência de eficiência, eficácia ou efetividade.

 

Isso quer dizer que, embora muitos sites e blogues apontem os efeitos relacionados à concentração, é muito provável que a ASMR esteja associada a uma combinação dessas redes em estado de repouso, as quais provavelmente influenciam as experiências sensoriais e emocionais associadas a ela. Mas mesmo não sendo cientificamente comprovada como eficaz, essa técnica também não apresenta nenhum risco à saúde mental de quem assiste aos vídeos; pelo contrário, ajuda a relaxar nem que seja por um momento, o que na realidade atual faz grande diferença.

O sucesso dos vídeos ASMR

Para saber exatamente como esses vídeos são criados e qual o resultado deles para as pessoas que os assistem, eu entrei em contato com um dos youtubers mais conhecidos do Brasil nesse assunto. O paulista Felipe Elias de Melo Santos tem 17 anos e teve seu primeiro contato com esse tipo de vídeo por meio dos recomendados do YouTube em categoria Hipnose. “Sempre tive o sonho de ter um canal por adorar produzir filmagens e vídeos, e depois de diversas tentativas na plataforma, e após descobrir e gostar da área do ASMR, decidi criar um canal no ramo. E foi sucesso na certa, mais de mil inscrições em uma semana, quantidade jamais obtida por mim em minhas outras tentativas no YouTube”, conta.

Com o sucesso dos vídeos iniciais e a procura pelo assunto, Felipe passou a investir no tema e produzir vídeos cada vez mais relaxantes, não mais desenvolvendo isso como hobby, e sim como trabalho sério. “Minha produção de vídeos em ASMR só foi considerada trabalho a partir do momento que comecei a adquirir equipamentos e melhorias para as gravações. E graças a minha audiência [inscritos e fãs] e muito trabalho, pois preciso realizar as filmagens de madrugada para minimizar os barulhos externos. Hoje em dia consigo me manter com minha própria renda do YouTube [asmr adlipe]”, destaca.

Além de garantir a renda do jovem, os vídeos ajudam as pessoas que os assistem. De acordo com Felipe, que tem mais de 300 mil inscritos e mais de 35 milhões de visualizações, o feedback é positivo. “Recebo relatos de melhorias de depressão e ansiedade, e isso me motiva muito a continuar realizando os vídeos e só aumenta meu amor pela produção. Infelizmente o ASMR ainda sofre com muito preconceito por parte dos internautas, mas é uma coisa de contínua superação, e eu fico imensamente feliz em fazer parte dessa comunidade com o foco em ajudar as pessoas, porque é possível usar as redes sociais para o bem, basta as pessoas estarem cientes do que lhe fazem bem e o que lhe fazem mal, e saber filtrar isso”, conclui.



Formada em Jornalismo (UDC) e pós-graduada em Relações Internacionais Contemporâneas (Unila), atualmente é jornalista e editora na Revista 100fronteiras.


Deixe um comentário