Artes Plásticas de Maria Cheung se eternizam

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Por: Edilma DDuarte

A artista, iguaçuense de coração, foi aceita como membro da Academia Internacional de Cerâmica

A artista plástica, radicada em Foz do Iguaçu, só tem o que comemorar neste final de 2018. Não bastasse uma série de exposições, participações especiais em coletivas e menções honrosas colecionadas ao longo do período, Maria Cheung ainda celebra, com a mesma humildade que lhe é peculiar, o seu ingresso na Academia Internacional de Cerâmica (AIC).
Representando o Brasil, ela teve seus trabalhos avaliados por uma comissão julgadora que a considerou apta a integrar a academia. Importante ressaltar que, até este ano, o Brasil contava com apenas um representante na AIC. Se consideramos o fato de que um número expressivo de artistas se candidatou e apenas dois foram selecionados, um deles Maria Cheung, o clima não poderia ser outro senão o de comemoração.

Criada em 1958 para representar os interesses dos ceramistas de todo o mundo, a academia é vinculada à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). A AIC tem sua sede oficial no Museu Ariana (Musée suisse de la céramique et du verre), em Genebra, Suíça.

Em busca de suas origens

Naturalizada brasileira, Maria Cheung mudou-se de São Paulo para Foz do Iguaçu em 1987. Na cidade de fronteira trinacional mantém, há décadas, o amplo ateliê onde dá vida a murais, peças decorativas e utilitárias, acessórios modernos e bem originais e mais uma gama de objetos.


Criadora incansável e surpreendente, Maria Cheung coloca diariamente a “mão na massa”, moldando o barro, acompanhando a queima de suas peças no forno industrial instalado em seu próprio espaço, projetando e produzindo uma nova exposição e lecionando.
Participações em salões de arte, exposições individuais e coletivas, premiações, obras públicas espalhadas em vários estados brasileiros, na Ásia, na Europa e na América do Sul, produções bibliográficas e bibliografias recheiam o currículo desta artista, que desenvolve um trabalho focado essencialmente na busca do autoconhecimento.

Redescobrindo referências

Quando chegou ao Brasil, em 1964, aos 7 anos, estrangeira em um universo completamente novo, “oposto e muitas vezes cruel”, segundo a própria artista, foi levada a negar suas raízes para ser aceita na nova sociedade. Adulta, cursando a faculdade de Educação Artística e já inserida, ela conta que se sentiu segura para retornar às suas origens, redescobrindo suas referências e conhecendo o significado da simbologia de sua cultura.


Com a série Nui, de 1996, resgatou o doloroso universo feminino de uma China do século 19, onde a postura dominadora masculina impunha às mulheres enfaixarem seus pés para que não crescessem mais que oito centímetros. A justificativa: assim, ficariam mais femininas e sensuais. O verdadeiro sentido por trás dessa exigência: tirar da mulher a autonomia de seus passos.

Nesse contexto, Maria Cheung utilizou os próprios pés, modelados em argila, para falar do sofrimento vivido pela sua bisavó e por todas as mulheres daquela época. “Eu percebia que, a cada nova série, minhas referências culturais se reapresentavam inconscientemente, impressas em minhas obras”, relata a artista.

Em Nui Toy, Maria tratou da rejeição das crianças do sexo feminino na China – o que ocorre hoje em razão do controle da natalidade. Já na fase iniciada com a série TAO – quando conheceu os significados da simbologia chinesa –, a ceramista percebeu o quanto de suas origens estavam enraigadas dentro de si. “Eu vinha usando, intuitivamente, formas do meu universo simbólico”, reflete.

Condição feminina

Cheung conta que ao rever os seus primeiros trabalhos, produções quase espontâneas, pôde perceber suas origens refletidas nos formatos e nas texturas primitivas dos vasos de cerâmica que iam evoluindo ao longo do processo. “A partir daí passei a utilizar outras formas de expressão, no intuito de abordar a condição das mulheres chinesas de hoje e do passado.”

Trazendo para o centro da discussão o universo das mulheres chinesas, a artista diz identificar muito de si. “Vejo nas minhas obras o reflexo da minha própria busca pela conquista do meu espaço como mulher e como artista”, observa.

Escrevendo sobre a artista, o ceramista Megumi Yuasa pontifica: “Maria fala de si e de suas relações com o mundo com a coragem de quem enfrenta a solidão do autoconhecimento e os caminhos áridos, mas gratificantes, do resgate de suas raízes. É um trabalho confessional, que adquire maior interesse porque faz parte de uma reflexão poética sobre a sua identidade e sobre a cultura chinesa, tão pouco conhecida por nós”.

A cerâmica

A cerâmica, ou arte do barro (argila), é uma manifestação artística descoberta há dez mil anos. Os primeiros objetos de cerâmica tinham finalidades práticas, como guardar sementes e grãos, transportar água, cozinhar alimentos e outras tarefas da vida cotidiana. Logo a modelagem do barro passou a expressar gostos e crenças. As peças também davam identidade aos povos primitivos, que, por meio de marcas deixadas nas cerâmicas, reconheciam-se entre si e perante os outros.


Os estudiosos do assunto afirmam que a cerâmica é a mais antiga das indústrias, nascida no momento em que o homem começou a utilizar-se do barro endurecido pelo fogo. Desse processo de endurecimento, obtido casualmente, multiplicou-se. A cerâmica passou a substituir a pedra trabalhada, a madeira e mesmo as vasilhas feitas de frutos como o coco ou a casca de certas frutas.




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