Arquiteto Décio Luiz Cardoso, um apaixonado por Foz do Iguaçu

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Por: arquiteto Rafael Luiz Cardoso

Fotos: Arquivo da família 

Um dos mais ilustres personagens da história de Foz do Iguaçu, o arquiteto Décio Luiz Cardoso ajudou a urbanizar a cidade e a moldar o seu skyline por meio de projetos arrojados e singulares. Dono de um traço diferenciado, tinha a forma triangular como uma assinatura em sua arquitetura, deixando-a evidente sempre que possível. Pai exemplar, chefe de família dedicado, cidadão de caráter ilibado e profissional apaixonado e competente são algumas das qualidades ouvidas daqueles que o conheceram.

Neto de imigrantes portugueses e alemães, o catarinense de São Francisco do Sul, nascido em 1952, mudou-se com seus pais ainda muito cedo para Curitiba, em 1956, e aos 18 anos conheceu Ana Maria, coincidentemente também francisquense, com quem se casou alguns anos depois, em 1976, e teve cinco filhos. Décio Cardoso formou-se em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Paraná, em 1975, e iniciou seus primeiros projetos em Curitiba e São Francisco do Sul.

Sua história em Foz do Iguaçu se iniciou um ano após sua graduação na faculdade, quando foi convidado pelo então prefeito do município, Clóvis Cunha Vianna, para compor a equipe da Secretaria Municipal de Planejamento, no cargo de diretor. Coronel Clóvis Cunha Vianna tomou posse como prefeito em 1974, nomeado pelo presidente Ernesto Geisel, e tinha a missão de estruturar a cidade de Foz do Iguaçu de forma ordenada devido à construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu.

Nessa época, a população da cidade era de um pouco mais de 30 mil habitantes e seu crescimento seria inevitável, pois receberia um enorme contingente para a execução da obra. O arquiteto veio para ficar por um ano, mas se apaixonou pelo trabalho e pela cidade e rapidamente foi nomeado secretário municipal de Planejamento, em 1978, e estava em suas mãos adequar e coordenar a execução do Plano Diretor de Foz do Iguaçu, que foi desenvolvido pela UFPR.

Juntamente com o engenheiro Jairo de Oliveira, secretário de Obras do município, ambos colocaram em prática o novo Plano Diretor, que estruturou toda a cidade e suas principais avenidas e ainda desenvolveu um plano de expansão e desenvolvimento para Foz. Entre outros projetos, destacam-se a abertura das avenidas Paraná e JK, duplicação da Avenida Jorge Schimmelpfeng e reestruturação da Avenida Brasil, tornando-a uma via de comércio e lazer mais convidativa também aos pedestres.

Décio projetou, ainda como secretário de Planejamento, a construção do Ginásio de Esportes Costa Cavalcanti e a ampliação da Câmara de Vereadores de Foz do Iguaçu (hoje Procuradoria-Geral do Município). Acumulou, também na gestão do prefeito Clóvis Cunha Vianna, a função de presidente da já extinta Companhia de Desenvolvimento de Foz do Iguaçu (Codefi), que tinha como finalidade solucionar os problemas de infraestrutura do município.

Na gestão do prefeito Wádis Benvenutti, seguiu como secretário de Planejamento até 1984, quando a cidade já contava com uma população de mais de 135 mil habitantes.

Sempre muito dedicado à sociedade iguaçuense, Décio lecionou como um dos primeiros professores da Faculdade de Ciências Sociais e Aplicadas de Foz do Iguaçu (Facisa), hoje Unioeste. Era bastante ativo como maçom e rotariano – ex-presidente do Rotary Club de Foz do Iguaçu.

Em seu escritório de arquitetura, juntamente com outros nomes importantes da história do município, como Jairo de Oliveira, Paulo Mac Donald, Lyrant Mehl, Nilso Rafagnin, Carlos D’Andrea, entre outros, foi concebida a ideia e fundada, em 1981, a Associação dos Arquitetos, Agrônomos e Engenheiros de Foz do Iguaçu (AEFI). Presidida por Décio em 1982/83, a entidade de classe visa a dar suporte, valorizar e integrar os profissionais das áreas de arquitetura e engenharia.

Décio teve, durante toda sua trajetória profissional, um grande amigo e parceiro sempre acompanhando-o de muito perto. Carlos Alberto D’Andrea Ribeiro foi colega de turma no curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPR. Ainda como acadêmicos, iniciaram a parceria de prancheta projetando a sede do Clube Três Marias, em Curitiba, e trabalhando juntos como desenhistas projetistas na construtora Adobe, do arquiteto Leo Grossman.

Décio e D’Andrea tinham a meta de iniciar um escritório de arquitetura em Curitiba assim que se formassem, mas os planos foram interrompidos com o convite que Décio recebeu do Coronel Clóvis Vianna para compor a Secretaria de Planejamento de Foz do Iguaçu. Então o destino se encarregou de colocar os dois mais uma vez lado a lado. Em 1979, Carlos D’Andrea recebeu uma proposta do empresário e ex-prefeito de Foz do Iguaçu Ozires Santos para desenvolver o projeto de um grande loteamento na cidade. Com escritório em Curitiba, o arquiteto resolveu elaborar esse projeto em Foz do Iguaçu, pois precisaria fazer muitos levantamentos de campo, e assim veio para o que pensava ser uma curta temporada em Foz.

Ao se reencontrarem em Foz do Iguaçu, em 1979, Décio e D’Andrea retomaram a parceria. Nesse mesmo ano, um empresário argentino solicitou que fizessem um estudo para um hotel de grande porte no centro da cidade. Com o estudo embaixo do braço, foram a Posadas, na Argentina, apresentar o projeto para Juan Radzichowski, o qual de imediato aprovou o que seria o Hotel Internacional Foz.

A edificação, imponente até hoje no centro de Foz do Iguaçu, destaca-se por sua torre cilíndrica de planta baixa aparentemente redonda, mas se bem observada tem seu perímetro facetado com pontas triangulares que avançam em cada uma das faces. O projeto se tornou um ícone e alavancou os negócios do escritório.

Ainda em 1979, foram os vencedores do concurso para projetar a nova sede do CREA-PR em Cascavel, o que abriu mais as portas para o sucesso e também para um novo mercado, levando-os a projetar, a pedido do CREA-PR, as sedes da entidade em Ponta Grossa, Maringá e Pato Branco. Em Cascavel ainda saiu do escritório a ampliação do Hotel Querência e a residência de seu proprietário, o empresário Nelson Padovani.

Em 1983, mais um hotel de arquitetura de ponta saiu da prancheta do escritório. O Hotel Continental se destaca pela forma cheia de movimentação. Com dois blocos principais, um mais baixo de planta em “S”, com fechamento superior plano, e o segundo contrapondo-se ao primeiro, com planta retangular, porém com seu coroamento superior em forma de “S”.

As janelas em fita em ambos os blocos se encarregam da união formal entre eles. Torres arredondadas de circulação vertical dão uma verticalidade, quebrando a arquitetura predominantemente horizontal. Uma base retangular é cortada pelo bloco curvo que avança sobre ela, deixando um grande vazio fazendo a marcação da entrada principal juntamente com uma marquise de forma orgânica.

Apesar de o escritório estar indo de vento em popa, ainda trabalhavam como arquitetos autônomos parceiros e viam a necessidade de se reestruturar e alçar voos ainda mais altos fundando em sociedade a Parque Planejamento Arquitetura e Edificações, em 1985, empresa renomada desde seu início.

Começaram a empreender. Já no primeiro empreendimento, projetaram um novo ícone para a cidade: o edifício residencial Alto Paraná, com uma arquitetura ousada de planta alongada e dotada de sacadas com pontas triangulares alternadas em concreto aparente nas suas extremidades. Um plano vertical corta transversalmente o edifício, abrigando a circulação vertical, reservatório de água e casa de máquinas dos elevadores.

O conhecido “prédio das pontas” ainda leva em sua cobertura uma área de lazer de formato orgânico que quebra sutilmente a agressividade das sacadas pontiagudas. O projeto foi selecionado para participar da 3ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, em 1997, juntamente com outros dois projetos do escritório: Colégio Educação Dinâmica e Galli Palace Hotel.

Ainda em 1985, Décio projetou a residência de sua família abusando do uso de triângulos na concepção da planta baixa. Para a implantação do corpo principal da edificação, foi proposto um grande triângulo-retângulo que foi dividido em dois volumes triangulares, e um outro triângulo menor foi adicionado completando a composição final. O que surpreende nesse projeto é a compartimentação interna da casa – a qual, apesar de a forma triangular trazer grandes dificuldades de aproveitamento, foi muito bem trabalhada, com soluções inteligentes para os cantos agudos, sem espaços perdidos e com uma funcionalidade incrível.

Um novo empreendimento da Parque foi idealizado em 1987 com uma arquitetura mais sóbria, porém não menos elaborada: o edifício residencial Vale do Monjolo, implantado em uma região alta da cidade e concebido com uma planta em cruz com seu núcleo de circulação vertical centralizado de maneira que os apartamentos (uma unidade por pavimento) pudessem ter uma vista privilegiada da cidade em cada uma de suas quatro fachadas. Grandes empenas cegas nas porções internas da cruz são responsáveis pela simplicidade elegante da torre e sobriedade do projeto.

Capa da Projeto Design, mais importante revista brasileira de arquitetura, o projeto da Prefeitura de São Miguel do Iguaçu foi concebido em 1990 e teve a conclusão de sua obra 20 anos mais tarde. As linhas curvas emolduradas por grandes panos de vidro, permitindo que a fachada reflita a cidade, conferem à obra de caráter público uma imagem vigorosa. Assim a população identifica com facilidade a finalidade da edificação.

Localizada em um lote acidentado, foi implantada prevendo uma acomodação otimizada no terreno, sem muitas intervenções de movimentação de terra. A forma curva simples e sofisticada é quebrada com parte do auditório de formato quadrado surgindo em uma das laterais do prédio. A torre do reservatório de água com planta em forma de gota dá à edificação um marco vertical opondo-se à horizontalidade predominante na obra.

Era hora de expandir. Em 1992, abriram em Cascavel uma filial da Parque Planejamento Arquitetura e Edificações, em sociedade com a arquiteta local Cláudia Padovani. Em 1994, estava na prancheta da empresa o projeto do edifício Falls Garden em Foz do Iguaçu, contratado por uma construtora de Cascavel.

No dia 28 de abril daquele ano, o arquiteto Décio Luiz Cardoso deveria estar em Cascavel para fazer a entrega e apresentação final do projeto. Após tentativa de usar os dois carros de sua família para o deslocamento, e ambos apresentarem defeito, ele emprestou o veículo de sua sogra para poder seguir viagem. Quis o destino assim: faleceu naquela tarde em um trágico acidente na BR-277, deixando enlutada toda a sociedade iguaçuense. Contudo não deixaria nunca de esgotar todas as possibilidades de comparecer à reunião devido ao amor à profissão e à forma irretocável com que conduziu sua vida, tanto no âmbito profissional quanto no pessoal.

Décio deixou para a cidade e também para sua família um legado profissional, ético e moral, princípios que marcaram sua história, assim como sua paixão pela arquitetura e região da Tríplice Fronteira. Foz não se esqueceu de seus serviços ao município e, em 1994, homenageou-o batizando uma via pública com seu nome: Rua Décio Luiz Cardoso (antiga terceira pista da JK).

Hoje seu filho mais velho, o também arquiteto Rafael Luiz Cardoso, trilha os passos do pai buscando a imortalidade dos ensinamentos deixados por ele. Formado pela PUC-PR, e com especialização em gerenciamento e execução de obras, fundou em Curitiba, juntamente com sua esposa, a arquiteta Sussiane Cardoso, a Roca Arquitetura, empresa com mais de 15 anos de experiência atuando nas áreas de edificações, interiores e gestão de obras. Atualmente a Roca Arquitetura tem sede em Foz do Iguaçu.



Formada em Jornalismo (UDC) e pós-graduada em Relações Internacionais Contemporâneas (Unila), atualmente é jornalista e editora na Revista 100fronteiras.


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