A busca pelo Autoconhecimento

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Por: Patrícia Buche

Uma vez conversando com uma amiga, que é mãe de primeira viagem, ela comentou que os bebês são como CDs em branco, são puros, e que são os pais que alimentam essa memória e criam nas crianças as crenças, limitações e manias. Apesar de eu ainda não ter filhos, refleti sobre aquele comentário e de repente fez todo o sentido. O nosso comportamento, muitas vezes, é condicionado por aquilo que nos ensinam quando somos crianças. Por isso é tão difícil responder à pergunta “quem sou eu?”. No entanto, nunca é tarde demais para procurar essa resposta, e esta reportagem pode dar-lhe uma luz, então acomode-se confortavelmente aí e me acompanhe nessa busca pelo autoconhecimento.

Cada vez mais os assuntos relacionados à saúde mental e ao comportamento humano vêm destacando-se na sociedade, e a procura por esses temas é reflexo da vida agitada e das interconexões que as redes sociais nos proporcionam. E quando surge a oportunidade de desacelerar e desconectar-se automaticamente, a nossa concentração se volta para dentro de nós, o que causa uma série de questionamentos sobre quem somos, já que falar de nós mesmos nunca é fácil.

Eu, como jornalista, escrevo centenas de histórias de pessoas e consigo captar a essência delas em cada texto. No entanto, ao fazerem perguntas para mim, eu não consigo responder de imediato, e ao parar para pensar em quem eu sou na essência parece que qualquer descrição ou adjetivo usado soa como algo prepotente. Então eu me calo e deixo que os outros digam quem eu pareço ser. E isso, como dito acima, é um reflexo de nossa infância e emoções que foram predeterminadas pelos nossos pais, o que nos distancia do anseio de procurarmos por conta própria descobrir quem somos.

Mas os pais estão errados por agir assim? De acordo com a terapeuta e consteladora sistêmica familiar Vivian Vaêna, existe uma técnica que mostra por que nossos pais agem dessa forma e como isso gera um impacto em nós. É a chamada constelação sistêmica. “Podemos dizer que a constelação é uma terapia de reconciliação, onde podemos olhar para a nossa família, nossa história e, com esse novo olhar, aceitar tudo como foi, aceitar nossos queridos pais como eles são, saber que como pais eles fizeram o seu melhor para que pudéssemos estar aqui, porque quando aceitamos, principalmente, nossos pais como eles são, nós também podemos nos aceitar, pois somos uma mistura perfeitamente equilibrada de 50% do DNA da nossa mãe e 50% do DNA do nosso pai”, explica.

De acordo com Vivian, a constelação trata do primeiro ciclo da vida, no qual tudo se aprende com base na família. É uma técnica terapêutica breve, criada pelo psicoterapeuta e filósofo alemão Bert Hellinger, em que se criam “esculturas vivas” reconstruindo a árvore genealógica, o que permite localizar e remover bloqueios do fluxo amoroso de qualquer geração ou membro da família, numa única sessão. Em seus estudos, Hellinger observou que os relacionamentos familiares estão submetidos a três leis que tornam as relações mais leves e fluidas quando são respeitadas, e que quando quebradas trazem dificuldades aos integrantes do sistema familiar. Essas leis atuam ao mesmo tempo e são conhecidas por “Ordens do Amor”, que são: o pertencimento, a ordem ou hierarquia, e o equilíbrio entre o dar e o receber.

Ter consciência disso nos ajuda a entender por que muitas vezes agimos da forma que agimos. Por que somos inquietos, explosivos ou até mesmo calmos demais. Então para você deixar anotado, o primeiro passo na busca pelo autoconhecimento é nos reconciliarmos com nossos pais e nosso passado. “Algo que nos ajuda a evoluir enquanto indivíduos e profissionais é desenvolver plenamente o nosso autoconhecimento, sabendo principalmente de onde vem a nossa força e qual o nosso lugar. Sendo assim, quando investimos e passamos pelo processo de constelação sistêmica, temos a oportunidade de conhecer a nós mesmos, de entender nossos sentimentos, as emoções que regem nossas ações e comportamentos, entre outros aspectos de nosso ser, que nos ajudam a compreender o que precisamos potencializar em nossa personalidade e o que precisamos modificar, para que assim alcancemos a realização pessoal e profissional, uma vez que entendemos definitivamente que podemos mudar apenas a nós mesmos e nunca o outro”, complementa Vivian.

Concentre-se em você

E como o foco desta matéria é você, não os outros, outra técnica dessa busca por se conhecer é a prática do ioga, em que os ensinamentos do Kundalini Yoga, de Yogi Bhajan, conscientizam-nos de que somos seres em desenvolvimento humano e espiritual. “Temos uma personalidade básica, mas podemos nos autodesenvolver para alcançar estados mais promissores da mente. Portanto, o autoconhecimento é a base do ioga. Conhecemos melhor nosso corpo, nossa respiração, nossa mente, nossos desejos e padrões, e podemos optar pelas mudanças que nos farão bem. Tudo isso parte da prática e da própria experiência que as ferramentas do Kundalini Yoga disponibilizam, como os kriyas, as meditações, os mantras, o serviço (seva) e o compartilhar em uma comunidade (sangat)”, ressalta Rodrigo Cuppeli, professor de Kundalini Yoga pelo Kundalini Resarch Institute.

Além disso, ele destaca que o autoconhecimento é a base desse autorrelacionamento que leva a melhorias em todos os relacionamentos, como na família, trabalho, amizades e amores. “Como toda a disciplina, no entanto, precisa de prática, não é algo automático ou como um milagre. Autodesenvolvimento é algo contínuo, algo que deveríamos fazer todos os dias, assim nos tornamos muito mais preparados para lidar com os desafios da vida, incluindo o trabalho”, frisa.

E por que isso é importante para as relações com os outros? Porque a convivência humana exige esse autoconhecimento e autocontrole de nossas ações e emoções. “Saber administrar as emoções está intrinsecamente ligado à inteligência emocional. Uma pessoa emocionalmente desequilibrada desenvolve comportamentos agressivos que podem atrapalhar seriamente sua relação de trabalho com os colegas e equipe. Identificar um desequilíbrio emocional por si só já é um desafio. Quando ele ocorre no ambiente de trabalho, pode ser ainda mais complicado, já que existe uma crença enraizada de que o estresse precisa estar sempre presente quando se trata de assuntos de trabalho”, alerta a apoiadora Dale Carnegie, Blenda Dal Moro.

 Como se relacionar no ambiente de trabalho

Já que falamos sobre nós mesmos, agora é hora de ver como isso influencia nosso relacionamento no trabalho e, a partir disso, buscarmos maneiras de melhorar, pois nem todo mundo tem a capacidade de conviver amigavelmente no ambiente profissional, seja por motivos próprios ou até mesmo pelo local, que por estar saturado acaba adoecendo os funcionários. Quando isso acontece, existe uma ferramenta que ajuda a identificar esses problemas e a buscar formas de melhorar o ambiente profissional: é a chamada psicologia organizacional. “A psicologia organizacional é a ciência do comportamento humano, uma área de aplicação que se preocupa em compreender o comportamento individual, o bem-estar dos funcionários e a aplicação de princípios científicos no ambiente de trabalho”, informa a psicóloga e coach Neiva Luciane da Cruz Jacinto.

Ela conta que esse método beneficia o local de atuação promovendo a qualidade de vida e é indicado para diminuir conflitos e colaborar no clima organizacional, sendo o psicólogo o mediador entre a organização e os trabalhadores. Para isso, atua em recrutamento e seleção, testes psicológicos, análise de cargos, descrição de cargos como: conhecimentos e habilidades, recursos humanos e clima organizacional. Esse trabalho geralmente é feito com pequenos grupos ou então de forma individual, e o profissional tem a função de avaliar o ambiente de trabalho por meio do estresse, comportamento e atitudes dos colaboradores. “Não se pode negligenciar questões que envolvam conflitos, pois somos emoções, temos limites de pressões, além de que algumas pessoas têm maior resiliência, e outras não. Por isso, a forma como cada um reage ao ambiente de trabalho é particular”, salienta.

“Se você quer que o mundo mude, você precisa mudar primeiro. Comece pela única pessoa que você pode mudar: você mesmo. Quem sabe é essa a atitude faltante para que o ambiente também mude” – Blenda Dal Moro

Para atingir o autocontrole é fundamental ter consciência sobre suas emoções e como elas impactam suas ações e relacionamentos. “A razão e a emoção precisam estar em um estado de equilíbrio para que o indivíduo consiga atingir todo seu potencial. Dessa maneira, é possível encontrar soluções criativas para os problemas, permanecer mais relaxado e flexível. Se você é uma pessoa mais racional, é possível desenvolver seu lado emocional entrando em contato com as artes, literatura e meditação. Caso você tenha um perfil mais emocional, procure desenvolver o outro hemisfério do seu cérebro com exercícios de lógica ou aprendendo uma nova língua”, sugere a terapeuta Vivian.

Além do mais, outra dica para quem trabalha em ambientes saturados é manter os pensamentos positivos sempre, pois pensamentos geram emoções. “Emoções positivas têm um impacto forte e contribuem para nos sentirmos bem e termos maior desempenho nas tarefas e criatividade. Ao passo que emoções negativas criam uma situação que desfavorece a assertividade e o bem-estar”, argumenta Neiva.

Neiva também aconselha as empresas a procurarem um profissional da psicologia organizacional para fazerem uma ação. “Um conhecimento do clima ajuda na melhoria da qualidade de vida do trabalhador dentro da empresa e gera uma melhoria das relações, além de uma otimização do trabalho. O clima organizacional pode influenciar a satisfação, o rendimento no trabalho e a motivação dos trabalhadores, por isso é tão importante fazer essa atividade para identificar os problemas e poder tratar da melhor forma possível”, justifica a psicóloga.

Além da psicologia organizacional, outra ferramenta de conhecimento utilizada em ambientes de trabalho é o Dale Carnegie, conforme explica Blenda Dal Moro. Segundo ela, os treinamentos oferecidos possuem técnicas que ajudam a dominar as habilidades de comunicação e liderança necessárias no ambiente de negócios exigente de hoje. “Trabalhamos para desenvolver nas pessoas uma atitude diferenciada, fazendo com que elas assumam responsabilidades com uma visão clara e confiança fortalecida, como também a fortalecer seus relacionamentos interpessoais, gerenciar o estresse e lidar com as condições de mudanças rápidas, transmitindo segurança e entusiasmo em seu local de trabalho.”

E por meio desse processo as pessoas aprendem a controlar suas emoções dentro do ambiente de trabalho. “Se você tem autoconfiança para se posicionar, bom relacionamento com as pessoas que estão ao seu redor e uma comunicação adequada, você consegue construir uma relação de confiança e consequentemente conseguirá liderar e influenciar pessoas. Mas se por algum motivo o controle emocional não existir, em alguma situação mais desafiadora, você poderá pôr em risco toda a credibilidade construída.”

Então se você sente que precisa melhorar seu comportamento no trabalho, lembre-se de que o autoconhecimento é o passo inicial para isso. “A partir do momento que temos a oportunidade de entender melhor os motivos que nos levam a agir de determinada forma e não de outra, bem como de compreender por que algumas situações acontecem e se repetem com frequência em nossa existência, conseguimos levar uma vida com muito mais significado e leveza. Isso porque passamos a ampliar a nossa consciência sobre estas situações de desajuste, seja em nossa família ou em nosso ambiente profissional, para que assim tenhamos a oportunidade de implementar as ações necessárias para que as mudanças se tornem verdadeiramente efetivas e consigamos seguir em frente de forma plena, harmoniosa e tranquila”, completa Vivian.

E isso não somente para quem trabalha em empresas como também para os gestores, ou seja, profissionais que têm empreendimentos e lidam com funcionários. Nesse caso, o conselho de Vivian é buscar oferecer um ambiente agradável: “A gestão de pessoas tem que ser essencialmente humana, pensar no bem-estar dos colaboradores em cada detalhe, tornando o dia a dia da empresa naturalmente agradável”.

Olhando tudo o que foi falado, pode parecer impossível executar essas ações, mas saiba que o primeiro passo é sempre o mais importante e tudo depende somente de você. Então queira se conhecer, queira ser uma pessoa melhor e saiba que o Universo se encarregará do resto.



Formada em Jornalismo (UDC) e pós-graduada em Relações Internacionais Contemporâneas (Unila), atualmente é jornalista e editora na Revista 100fronteiras.


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