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Foz do Iguaçu

Visita de Santos Dumont a Foz completa 100 anos

Visita de Santos Dumont a Foz completa 100 anos
100Fronteiras 100Fronteiras
13/05/2016 09:54hs

Na foto: Santos Dumont com Bradley

 

Em abril de 2016, a visita de Santos Dumont a Foz do Iguaçu completou cem anos. Por conta disso, em comemoração ao centenário, no dia 23 foi lançado o pré-projeto que visa a transformar o prédio do antigo aeroporto da cidade, o Gresfi, no Museu Santos Dumont.

 

A proposta foi apresentada pelo superintendente de Comunicação da Itaipu, Gilmar Piolla; o presidente do Gresfi, Élio Simonetto; o presidente do Sindhotéis e Fundo Iguaçu, Carlos Silva; e o presidente do Iguassu Convention & Visitors Bureau (ICVB), Altino Voltolini.

 

Para relembrar a visita desse ilustre personagem, a Revista 100 Fronteiras resgata agora uma reportagem publicada em fevereiro de 2009, na qual relata a passagem de Santos Dumont pela cidade, onde ele foi decisivo para transformar o atual Parque Nacional em patrimônio histórico. Nas páginas seguintes você confere como aconteceu esse fato que marcou a história de Foz do Iguaçu.

 

Memórias: Parque Nacional do Iguaçu, 70 ou 93 anos

 

Relatos e resultados da viagem não programada de Santos Dumont às Cataratas do Iguaçu e Foz do Iguaçu

 

Por: Jackson Lima

Foto: Arquivo

 

No dia 12 de novembro 1906, Alberto Santos Dumont decolou com seu avião 14-Bis e sobrevoou o Campo de Bagatelle em Paris. O voo cobriu 220 metros de distância a uma altitude de seis metros. Estava iniciada a era da aviação. Santos Dumont era uma personalidade mundial. Bateu-se o primeiro recorde mundial de voos. Dez anos depois desse voo, já retirado das invenções e construções, Alberto Santos Dumont viaja pelo mundo participando de eventos e sendo recebido por presidentes, autoridades e multidões. Levava mensagens para assegurar que depois da guerra os aviões continuariam voando – o que muita gente não acreditava. “Teremos então o aproveitamento definitivo do aeroplano como meio de transporte”, disse Santos Dumont em reportagem especial para O Estado de São Paulo de 11 de maio de 1916, três dias após passar por Curitiba, falar com o presidente do estado do Paraná, Affonso Alves de Camargo, e pedir atenção especial para os Saltos do lguaçu.

 

Mas 12 dias antes falar com o presidente do Paraná, Affonso Camargo, em Curitiba (Curityba, na época), Santos Dumont partia de Foz do Iguaçu em uma viagem de seis dias, em “lombo de burro”, até Guarapuava. Recebido com festas em Guarapuava pelo prefeito Luiz Scheleder, Santos Dumont dorme uma noite lá e no dia seguinte parte de carro para Ponta Grossa, nos Campos Gerais. De lá, e de trem, parte para Curitiba, onde chega no dia 5 maio de 1916. Curitiba inteira estava lá, segundo texto do historiador e professor da Universidade Federal do Paraná Átila José Borges. As festas, homenagens, convites em Curitiba não permitiram que Santos Dumont se entrevistasse com o presidente tão logo chegou. Foi para Morretes, Paranaguá e Antonina. Visitou a primeira escola a receber seu nome e recebeu carinho por onde passou. Até um jogo amistoso foi organizado em homenagem a ele no campo do Atlético Paranaense. Só no dia 8 de maio Santos Dumont foi recebido oficialmente pelo presidente Affonso Camargo. Na entrevista do jornal O Estado de São Paulo, Santos Dumont diz, pessoalmente, o que fez na capital paranaense:

 

Visita de Santos Dumont a Foz completa 100 anos

“Quando passei por Curityba, fui falar com o presidente do Estado sómente sobre o lguassú: pedir-lhe se interesses pelo salto, o torne mais fácil e commoda a excursão, imagine que não existe nem hotel por aquellas paragens. Existe, com o nome de hotel, uma casinha, com dois quartos e uma sala apenas...”.

 

Pela porta do fundo

 

A passagem de Santos Dumont pelo Paraná – desde a entrada do ilustre brasileiro por Foz do Iguaçu até chegar a São Paulo – foi uma viagem que escapou do protocolo. Não era uma viagem oficial. Depois de ver as Cataratas do Iguaçu e descobrir que não havia sequer maneira de chegar até elas, de hospedar-se nelas, de vê-las, além das terras ao redor serem uma propriedade rural normal, um imóvel concedido para agricultura, Santos Dumont, impetuosamente, anunciou para Frederico Engel: “Amanhã mesmo, bem cedo, quero seguir para Curitiba”. Os planos originais dele para voltar a Buenos Aires e embarcar para o Rio de Janeiro morreram.

 

Talvez isso explique a falta de peso nesse acontecimento, que deixa a impressão de certa frieza no ar. Especialmente na recepção de Santos Dumont pelo então presidente do estado, Affonso Alves de Camargo. No dia da recepção, o presidente do estado levou uma criança para o palácio. Uma criança que o acompanhou para que visse Santos Dumont, o herói da aviação, o maior brasileiro daquele período e verdadeiro cidadão do mundo.

 

A entrevista de O Estado de São Paulo dá a entender que Santos Dumont pegou a cidade de surpresa: “Santos Dumont chegou ontem a São Paulo. Aqui está uma notícia que a muita gente causará surpresa. Pois então, chegou ontem Santos Dumont, brasileiro célebre, o inventor do aeroplano – e não se fez nada na cidade, não se viu manifestação popular nenhuma, nem a mais simples demonstração oficial?”... A reclamação continua por mais um parágrafo.

 

O atual deputado federal pelo Paraná Affonso Alves de Camargo Netto se emociona quando fala do assunto: “Que bom que vocês lembraram de escrever sobre o meu avô”. E diz que cresceu ouvindo a história de como Santos Dumont veio a Curitiba e de como o seu pai, Pedro Alípio Alves de Camargo, foi levado a tiracolo para ver e ser visto pelo Pai da Aviação. Foi um evento para Pedro Alípio, e ele sempre falou disso. Hoje, 93 anos após aquele encontro, a foto da família é compartilhada com todos os paranaenses interessados nessa história de como, no começo do século, durante a 1ª Guerra Mundial e ainda no vácuo da Guerra do Contestado entre Paraná e Santa Catarina, uma guerra entre irmãos na qual, pela primeira e única vez, um estado brasileiro usou avião para bombardear o outro.

 

É uma foto especial. Santos Dumont aparece com olhar fixo em alguma coisa. Será o amistoso com o Atlético Paranaense? O presidente do Paraná, Affonso Camargo está à direita Santos Dumont. O pequeno Pedro Alípio está mais abaixo. Todo de branco. Chapéu branco e, como mandava o figurino, já com sua bengala.

 

Promessas feitas, promessas cumpridas

 

Até agora, e isso é muito perigoso dizer, não há registro do diálogo entre Santos Dumont e o presidente do Paraná. O que falaram? O professor Átila Borges registra que “o presidente faz uma promessa solene em atender aos precisos argumentos do insigne visitante. Santos Dumont deixou o palácio na certeza de que a busca do seu ideal tinha valido a pena”. E valeu? Três meses e 20 dias depois, o presidente do Paraná assina o Decreto 653, do dia 28 de julho. Foi publicado no Diário Oficial da segunda-feira, 31 de julho daquele ano.

 

“O presidente do Estado do Paraná (...) decreta: ‘Fica declarado de utilidade pública para o fim de nele se estabelecerem uma povoação e um parque, em conformidade com o Art. 3 [...] Regulamento que baixou com Decreto 560 de 1913, o lote de terra concedido a Jesús Val pelo Ministério da Guerra na Ex-Colônia Militar do lguassu, com a área de mil e oito (1.008) hectares, a margem direita do Rio lguassú, junto aos Saltos de Santa Maria, revogadas as disposições em contrário. (Palácio da Presidência do Estado do Paraná, em 28 de julho de 1916: 28° da República. Assinem o Decreto, Affonso Alves de Camargo (Presidente) e Caetano Munhoz da Roche (Vice presidente)’”.

 

O presidente Affonso Camargo, para muitos só o nome de uma importante avenida em Curitiba, acompanhou o processo pessoalmente até a assinatura da Escritura Pública de Venda três anos depois. A demora entre a desapropriação e a compra se deu porque Jesús Val entrou na Justiça. Em 1919, Jesús Val aceitou o que o governo oferecia, e a escritura foi assinada. Na folha 114 do Livro 0158 do 2º Tabelionato de Notas em Curitiba está registrado, com a ortografia da época:

 

“SAIBAM quantos esta virem que no anno do Nascimento de Christo de mil novecentos e desenove, aos dez de julho, nesta cidade de Curityba, Capital do estado do Paraná, em o Palácio da Presidência do mesmo estado, à rua Barão do Rio Branco, onde a chamado vim, compareceram as partes avindas e contractadas como OUTORGANTE VENDEDOR: Jesus Val, cidadão hispanhol, fazendeiro, residente em Porto Colon, Paraguay, neste ato representado por seu Procurador bastante Leopoldo Frederico Pereira [...] e como OUTORGADO COMPRADOR: o Estado do Paraná, aqui representado pelo seu presidente eleito e em exercício o Exmo Sr. Dr. Affonso Alves de Camargo e Dr. Albano Drumond dos Reis, procurador dos feitos da Fazenda do mesmo estado [...] A partir daqui o caminho está aberto para tudo o que aconteceu depois. (JL)”.

 

Primórdios do Parque Nacional do Iguaçu

 

No ano de 2016, o Paraná e Foz do Iguaçu celebraram os cem anos da desapropriação das terras em torno das Cataratas do Iguaçu para a criação de um parque. Confira uma breve cronologia do Parque Nacional:

 

1910 – Jesús Val é proprietário das terras à direita dos Saltos de Santa Maria;

 

1913 – Lei 1.260 abre caminho para desapropriações no estado;

 

1916 – Decreto 653 desapropria terras de Jesús Val;

 

1919 – Assinada Escritura Pública de Venda;

 

1930 – Parque sofre primeira ampliação;

 

1939 – Decreto Federal número 1.035 cria Parque Nacional do Iguaçu;

 

1942 – Serviços de parques nacionais do Serviço Florestal do Ministério da Agricultura propõe segunda ampliação;

 

1944 – Decretos 6.506, 6.587 e 6.664 elevam áreas para limites atuais;

 

1967 – Portaria 42/67 manda regularizar situação fundiária;

 

1972 – Concluído o levantamento;

 

1978 – Últimos colonos deixam os limites do Parque Nacional;

 

1980 – Desapropriam-se os últimos 459 hectares;

 

1986 – O parque entra na lista de Patrimônio Natural Mundial ou Patrimônio da Humanidade, organizada pela UNESCO;

 

1999 – Conclusão do Plano de Manejo;

 

2000 – Implantado o modelo de concessão em vigência;

 

2009 – 10 de janeiro, comemoração dos 70 anos da federalização das terras e criação do PNI;

 

2011 – No dia 11 de novembro, as Cataratas do Iguaçu foram eleitas uma das Sete Novas Maravilhas da Natureza;

 

2016 – Cem anos da visita de Santos Dumont às Cataratas e da desapropriação das terras onde hoje se encontra o Parque Nacional.

 

Santos Dumont e a comunidade iguaçuense

 

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Estátua de Santos Dumont

 

Foz do Iguaçu vivia a sua vida em um período confuso. Uma guerra era travada na Europa. A situação estava difícil. Havia boatos de uma lei que proibiria a entrada de alemães e outros cidadãos do Eixo no Brasil. A cidade tinha um pequeno hotel na Avenida Brasil e um “hotel” nas Cataratas. Juntando os dois, não dava um. O hotel do centro era de Frederico Engel. O hotel nas Cataratas também era “tocado” por Frederico Engel, mas pertencia a Jesús Val, espanhol, registrado no Livro dos Colonos desde o começo do século.

 

De repente, a notícia: Santos Dumont está em Puerto Aguirre, hospedado no hotel do Leandro Arechea — o único da vila. Arechea dividia o tempo entre a delegacia e o hotel dele atendendo os poucos turistas e os poucos presos que chegavam. Mas para evitar problema, desconfiava de todos os que chegavam à jurisdição turístico-hoteleira dele.

 

“Quando Frederico Engel soube que Santos Dumont estava hospedado no lado argentino e que a sua visita seria encerrada por lá, procurou de imediato o prefeito de Foz do Iguaçu, na época o Sr. Jorge Schimmelpfeng, para convencer o ilustre brasileiro para visitar o outro lado das Cataratas”, escreve o historiador Atila Borges. Uma comissão foi organizada, e Santos Dumont aceitou o convite.

 

Visita de Santos Dumont a Foz completa 100 anos

Jesús Val em sua propriedade em Puerto Aguirre: uma casa, cavalos e plantações

 

Esse fato poderia ter sido minimizado, como tantos outros que aconteceram na cidade, se não existisse uma professora em Foz do Iguaçu chamada Elfrida Engel Rios. Segundo Mário Rangel, organizador do Concurso de Documentos Históricos de Santos Dumont, realizado como parte dos eventos do centenário de nascimento do inventor em 1973, Elfrida Engel se esforçou para manter viva a memória de Santos Dumont em Foz do Iguaçu. “Ela ficou em terceiro lugar no concurso. Entre outras coisas, o esforço resultou na execução de uma estátua de Santos Dumont colocada no Parque Nacional do Iguaçu ao lado da BR-469, estrada de acesso ao parque e às Cataratas”, diz Rangel.

 

Outros grandes nomes na busca de documentação sobre Santos Dumont, além de contribuírem com suas memórias, foram Otília Schimmelpfeng e Marieta Schinke. Marieta Schinke, filha do fotógrafo Harry Schinke, responsável pelas fotos de uma época, lembra em entrevista ao jornal Nosso Tempo de Foz do Iguaçu, hoje fora de circulação, que dançou uma valsa com ele.

 

Santos Dumont e Jesús Val

 

Lendo o pouco que há escrito sobre Santos Dumont e sua passagem por Foz do Iguaçu e seu romance com as Cataratas, não há nada que indique que o fato de o dono das terras das Cataratas ser estrangeiro o incomodasse.

 

Ele nunca disse: “Isso não poderia estar nas mãos de um estrangeiro”. Ao presidente do Paraná, ele reclamou da falta de estrutura para quem quisesse visitar as Cataratas do Iguaçu, da falta de acesso, da falta de transporte, da falta de hotel e conforto e do abandono das autoridades. É por essa preocupação com o acesso e o conforto que os apaixonados por Santos Dumont o chamam de “Pai do Turismo Brasileiro”. A preocupação ambiental veio crescendo aos poucos ao longo dos anos. Pela preocupação com o abandono do local, ele ganha o título do “Pai do Parque Nacional”. A preocupação ambiental vem depois e aos poucos, pelo menos da parte dos governos. Basta ver que o decreto fala de um “parque” e um “povoado”.

 

A fobia de estrangeiros não podia ser a razão de Santos Dumont questionar a posse de terras nas Cataratas, pois ele era um brasileiro internacional. Viveu, estudou e fez nome na França; quando ele passou por Foz do Iguaçu, vinha do Chile, representando o Aeroclube dos Estados Unidos no Segundo Congresso Científico Pan-Americano. Ele conhecia os pioneiros da aviação em todos os países. Na Argentina, e nessa viagem, ele recebeu em Buenos Aires a dupla argentina Eduard Bradley e Angel Maria Zuloaga, que realizou a primeira travessia dos Andes em um balão.

 

Breve notícia dele

 

Anotações feitas no domingo, 20 de novembro de 1904, em um diário escrito por F.H. Chevallier Boutell, narra uma viagem feita de Buenos Aires às Cataratas do Iguaçu. Era uma viagem de lazer de gerentes de empresas de linhas férreas inglesas que operavam na Argentina. Os participantes fizeram a viagem de trem e, em alguns trechos, de barco, na parte do rio que os argentinos chamam de Alto Paraná. Ao chegarem a Puerto Aguirre, os viajantes foram recebidos por Jesús Val, que na época tinha uma pequena estalagem no barranco do Rio Iguaçu. O navio chegou à tarde e, em seguida, os ingleses anunciaram que tudo estava acertado para que Jesús os levasse às Cataratas com sua equipe: um cozinheiro, algumas éguas e cavalos, além de mantimentos. Veja o que o autor escreve sobre ele, o que é um primeiro relato de Jesús Val como pessoa:

 

“Don Jesús Val, um espanhol “muy picado (de mosquito) veionos saudar e se colocar à nossa disposição. Em Puerto Aguirre que fica no lado argentino, há umas quantas cabanas, e mais para cima no alto, uma casa boa feita de tábuas de cedro, onde Don Jesus e sua mulher vivem; atrás há alguns cultivos de milho e fumo, porém nada mais do que o suficiente para a casa. Logo ficou acertado que Don Jesus nos levaria às Cataratas com partida imediata. Partimos ás 8 da manhã depois de pegarmos as mulas e cavalos. Don Jesus conduzia uma carroça coberta, levando conosco um cozinheiro e mantimentos, um peão andando guiava a mula, Holt (um dos viajantes) à frente montava um cavalo, não exatamente dos grandes”.

 

A vida de Jesús Val continua um livro aberto. Logo alguma coisa aparecerá. Teria ele sido um precursor dos agentes de viagem na área do “receptivo”?

 

FRASES DE SANTOS DUMONT:

 

Sobre as Cataratas, ditas ao repórter de O Estado de São Paulo:

 

“pois imagine uma immensa queda d’agua offerecendo o mais bizarro pittôresco deste mundo: cachoeiras numerosas e variadissimas, ilhas espalhadas por alli, e a vegetação, e uma infinidade de aspectos bellíssirnos. O lguassú, sem exaggero nenhum, é uma maravilha. Maior, muito maior que o Niagara. O Niagara é uma formidável queda d’agua - mais nada. Não tem o lindo pittoresco do lguassú. Poder-se-ia dizer que ha um Niagara saxanio nos Estados Unidos e um Niagara latino aqui no sul da América”.

 

Sobre a aviação civil:

 

“Não se pode ainda afirmar quantos passageiros poderá um aparelho transportar normalmente. Mas fique sabendo que já se transportaram vinte e nove pessoas num só apparelho. Não é uma bella lotação? Mas tudo isso, só depois da guerra”.

 

A resistência de uma ideia

 

Criar um parque para proteger as Cataratas do Iguaçu, como todas as grandes ideias, é mais velha ainda. Até para fazer justiça à maioria dos atores envolvidos nessa história, a Revista 100 Fronteiras foi mais longe e descobriu que a vontade apareceu e sumiu muitas vezes. No livro “Pasado, presente y Porvenir del Territorio de Misiones”, o autor narra que durante as primeiras expedições argentinas que vieram a conhecer as Cataratas do Iguaçu entre os anos 1900 e 1903, uma placa colocada no tronco de uma árvore trazia a seguinte inscrição: “Entrada para o Parque Nacional”. O livro destaca que a placa foi colocada no local pelo chefe da Colônia Militar do Iguaçu.

 

Visita de Santos Dumont a Foz completa 100 anos

Jornal: "O Imparcial" de Castro, registra a passagem de Santos Dumont (Cortesia Museu de Castro)

 

O autor acrescenta: “A placa havia sido inscrita, inspirando-se seu autor na leitura descritiva daquele outro maravilhoso Parque de Yelowstone”. Quem citou essa passagem do livro foi outro escritor, o jornalista, poeta e funcionário público Manoel Azevedo da Silveira, em seu livro “Do Guairá aos Saltos do Iguaçu”, publicado em 1914, portanto dois anos antes de Santos Dumont chegar a Foz do Iguaçu e, de uma vez por todas, levantar a bandeira da defesa do parque tanto para proteger as Cataratas como para fazer com que mais pessoas pudessem chegar até elas.

 

A viagem nesse túnel do tempo, porém, pode ir mais longe ainda. Leva-nos a 1897. Desta vez, foi o capitão do Exército Brasileiro Edmundo de Barros, hoje nome de uma rua de Foz do Iguaçu, quem ganhou o direito de entrar para a história da cidade e dos esforços para a criação de uma área protegida em torno das quedas. Edmundo de Barros, capitão e engenheiro militar, fez o primeiro levantamento das Cataratas do Iguaçu. Seu trabalho resultou nos primeiros croquis ou planta das Cataratas.

 

Não há informação, pelo menos até este momento, sobre a planta das Cataratas, tal como feita pelo capitão e engenheiro militar Edmundo de Barros. Mas fontes históricas mostram que ele propôs a criação de um parque. É possível que a ideia original de Edmundo de Barros não fosse um parque nacional. Poderia ter sido mais na linha do Parque das Cataratas do Niágara, desenhado pelo projetista Frederick Law Olmstead, bem mais tarde, cuja conformação é de um parque urbano. Olmstead foi responsável também pela criação do Central Park de Nova Iorque e de outras cidades americanas.

 

Assim, vê-se que o Parque Nacional do Iguaçu, o segundo parque nacional do Brasil, foi fruto de diferentes gestações e contou com a participação de muita gente, destacando-se aí as iniciativas de membros da comunidade local e da Colônia Militar. É diferente do Parque Nacional de Itatiaia, onde a ideia de um parque partiu do botânico Alberto Loefgren em 1913, que sugeriu ao Ministério da Agricultura a criação de um parque nacional na Serra da Mantiqueira. Ele teve sorte. No mesmo ano, geólogos, botânicos e geógrafos, em congresso realizado no Rio de Janeiro, apoiaram a empreitada e se juntaram ao esforço.

 

Voltando ao Iguaçu, nem é necessário lembrar as ideias propostas pelo engenheiro André Rebouças, que antevia um parque unindo as Cataratas do Iguaçu com os Saltos de Guaíra. Em parte, Rebouças conseguiu. O Parque Nacional do Iguaçu está aí e existiu um Parque Nacional das Sete Quedas, com sede em Guaíra. Hoje, o Parque Nacional das Sete Quedas já não existe. Há esperança de que a memória e a mística dele sejam materializadas pelo Parque Nacional da Ilha Grande, em formação, no Rio Paraná. Mas aí é outra história. Outros atores, embora o sonho seja o mesmo.

Visita de Santos Dumont a Foz completa 100 anos

Documento de 1933 mostra a área desapropriada próximo a Estrada de Guarapuava, 1008 hectares "Reservado para Parque Estadual". (Terras e Colonização)

 

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