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Foz do Iguaçu

Peter Wood escreve ensaio sobre a Tríplice Fronteira

Peter Wood escreve ensaio sobre a Tríplice Fronteira
Peter Wood Peter Wood
01/12/2015 14:35hs

“Três fronteiras, uma só região.” A gente ouve isso com muita frequência e com boa razão. A diversidade e a integração da zona trinacional entre Foz do Iguaçu, Ciudad del Este e Puerto Iguazú são centrais a várias visões de desenvolvimento econômico e social. Mas também a questão do futuro regional em Foz do Iguaçu está em vários contextos, com múltiplas perspectivas. A minha, de alguém dos Estados Unidos, é importante, mas também ironicamente mal representada. Por isso acho ideal compartilhar minha pesquisa de doutorado, para mostrar não só o que eu encontrei estudando a Tríplice Fronteira,

mas também o que significa viver integração se se aceita o pluralismo de opinião e experiência. 

 

 

Há seis anos, eu li um livro chamado Ilícito, de Moisés Naím, enquanto escrevia meu Trabalho de Conclusão de Curso nos EUA. Eu estava estudando o tráfico de cocaína na Espanha, onde estive um semestre como estudante internacional em 2009 e onde tomei conhecimento sobre a complexa realidade do mundo ilícito presente nos mercados globais em crescimento. Aprendi especificamente que em Ciudad del Este há, historicamente, influxos de vários produtos e um comércio ilegal e informal. Isso me interessou muito.

 

Com o mundo mudando de formas tão únicas nesta época de conexões digitais, transporte quase instantâneo e incrível acesso à informação, eu quis explorar também como mudam os mecanismos de controle. Fronteiras, as linhas que nos separam e nos conectam, têm um papel fundamental neste mundo em transe. Assim, enxerguei na Tríplice Fronteira uma oportunidade de estar dentro de um espaço tão importante.

 

 

Agora, mais de cinco anos depois de ler pela primeira vez sobre o estilo de vida fronteiriço, estou finalizando minha tese e analisando os dados que coletei. Durante dois meses, eu realizei entrevistas com várias pessoas em Foz do Iguaçu e Ciudad del Este. Conversei sobre crime, educação, pequenas empresas, infraestrutura municipal e outras questões de desenvolvimento regional. Como geógrafo, eu direcionei meu enfoque a temas espaciais e em perspectivas sobre o que significa “desenvolver” uma região representada por três paises. Mas durante a pesquisa me dei conta de algo provocante: não é uma região composta apenas pelo Brasil, o Paraguai e a Argentina. Também estão envolvidos a China, o Japão, a Síria, o Líbano, a Alemanha e outros lugares, incluindo o meu país, os Estados Unidos. Sobretudo, eu vi que, embora não conseguiria representar todas as perspectivas, eu poderia fazer duas coisas: medir essa variedade de perspectivas sobre desenvolvimento em Foz e começar a entender como é se estar em minha então posição, ser um pesquisador norte-americano perguntando sobre uma cidade que não é a minha própria.

 

Até agora eu visitei Foz em três ocasiões. Durante esse tempo eu encontrei várias pessoas com várias ideias e opiniões. Antes de começar minha pesquisa, tantos professores me avisaram que seria difícil e possivelmente perigoso falar que sou norte-americano e estudo dinâmicas internacionais a respeito do controle estrangeiro de desenvolvimento regional na Tríplice Fronteira. E terrorismo? Não era opção para conversar se eu quisesse evitar ser confundido com um representante da CIA. Felizmente, minha experiência não foi assim. Sim, algumas pessoas tinham medo de falar comigo, e os motivos delas nem sempre eram claros. Mas na maioria do tempo eu consegui falar sobre temas diversos, às vezes até polêmicos, sem me sentir incomodado ou intrometido. A verdade é que, em nível federal, um norte-americano perguntando sobre, por exemplo, investimento estrangeiro apresentava um conflito de interesses. Entretanto, depois de explicar que sou aluno de doutorado e que não sou político, as pessoas pareciam ficar animadas pela oportunidade de expressar opiniões complexas a alguém que entende a situação, mas não tem interesse direito no futuro da região. Nesse sentido, eu representei um partido neutro com o qual eles pudessem compartilhar seguramente.

 

Durante minhas várias conversas, eu vi que diversidade e integração são bem importantes na vida dos cidadãos de Foz e além dela. Sobre as três fronteiras, existem tantas pessoas, tantas culturas e tantos estilos de vida. Sendo da esquerda ou da direita, era comum a todos comunicar a necessidade de diversidade na área fronteiriça. Mas também não existe só uma opinião sobre qual seria a forma apropriada de integração social, política ou econômica. Para cada apoiador do Mercosul, há outra voz contra. Com um proponente do Brasil como líder natural há outra pessoa dizendo que igualdade transfronteiriça é mais importante que aliança nacionalista. Com relação a fronteiras especificamente, as sugestões de como controlar (ou não controlar) fluxos de bens e pessoas variavam muito. Para mim, isso apresenta uma oportunidade de sustentar uma sociedade pluralista, mas também cria diferenças possivelmente irreconciliáveis.

 

Como diversidade e integração, durante minha pesquisa eu aprendi que existem fronteiras de várias formas, dependendo de sua experiência e identidade. Atravessar uma fronteira pode significar andar a outo país sem problemas, ou esperar horas em ônibus porque você não entendeu quais documentos pegar. A situação em Foz do Iguaçu sugere que devemos ver fronteiras como fenômenos multidimensionais. Para cada pessoa de cada país ou descendência, a relação com fronteiras internacionais é única. Para mim, um norte-americano, meu ponto de vista sobre a fronteira é parecido com minha opinião de integração: existem muitas formas de se ver cada uma, e para se entender o que são é preciso de mais que uma só perspectiva. Sim, uma dessas perspectivas é a “oficial” dos governos federais. Mas adicionalmente a gente tem de reconhecer a necessidade de outras, dos ricos e dos pobres, dos amigos e dos inimigos. Fazer isso pode deixar-nos informados e assegurar a fronteira de uma forma mais intelectual que militar.

 

Na minha pesquisa falei com pessoas de vários setores e trabalhos. Depois de analisar os dados, vi nos resultados três grupos de mentalidade que surgem na sociedade fronteiriça. Um deles gosto de chamar de “Otimistas de Integração”. Para eles, conectar três países, culturas e economias é algo que se inicia em nível municipal. As cidades, segundo pessoas com essa perspectiva, lideram o caminho. O segundo grupo chamo “Céticos das Instituições”. Essas pessoas diferem muito do primeiro grupo porque não acreditam no que falam os políticos e planejadores. Para eles, conectar três países é uma ideia interessante que existe numa realidade corrupta, complexa e cheia de obstáculos. Finalmente, encontrei no terceiro grupo os chamados “Nacionalistas”. Como sugere o nome, essas pessoas acham que a integração é menos importante que a supremacia brasileira. Se vai haver desenvolvimento na fronteira, segundo esse grupo, tem de começar no Brasil e, provavelmente, em Brasília.

 

Observar que existem visões do mundo assim, parcialmente iguais e parcialmente incompatíveis, não é uma surpresa. No Brasil e no exterior, conflitos e desacordos políticos são mais ou menos comuns. Mas ainda considerando isso, é essencial comparar a divergência de perspectivas de pessoas envolvidas com o desenvolvimento e a opinião mais típica de que cidades e fronteiras representam dois sistemas separados. Fronteiras – e os países que estão demarcados por elas – são únicas sim, mas também não são simples. Envolver-me com a sociedade durante a minha pesquisa ajudou-me a mostrar isto: que melhorar socialmente é mais do que votar nas eleições a cada quatro anos.

 

Para mim, um dilema surgiu durante meu trabalho em Foz. Embora ache importante pensar criticamente, também acredito que pragmatismo é valioso. Equilibrar os dois pode ser difícil e talvez intenso. Como estrangeiro pode ser ainda mais complicado, porque minha opinião (tanto pessoal quanto profissional) sempre será de um expatriado. Por isso me dei conta de que é importante contextualizar minha pesquisa localmente, para que os resultados sejam aceitos objetivamente sem sacrificar as perspectivas subjetivas que medi.

 

Integração internacional é uma questão crítica, tanto historicamente quanto hoje em dia. Uma das coisas mais relevantes que estudos em geografia política revelam é que integrar nações é algo tanto formal quanto pessoal. Da perspectiva federal, estabelecer uma cooperação transfronteiriça é mais do que tudo um processo político e dos políticos. Da perspectiva prática, fazer isso é subjetivo e essencialmente um assunto do cotidiano. Para mim, a mais importante coisa na Tríplice Fronteira é o enfoque em desenvolvimento inclusivo. Não só incluir pessoas de várias classes e lugares, mas também incluir perspectivas de níveis e escalas diferentes: individual, local, municipal, estadual, federal, internacional, etc.

 

Este penúltimo ponto, que integração significa incluir pessoas parecidas e diferentes, revelou-me algo interessante na organização de planejamento e desenvolvimento em Foz do Iguaçu. Para pessoas representando várias instituições era comum que se expressassem dizendo que, numa região trinacional, diversidade é uma vantagem e que a integração depende disso. A realidade pareceu mais complexa. Especialmente em Foz, onde paraguaios e argentinos trabalham, compram, viajam e passam 365 dias por ano, a presença de residentes de Ciudad del Este, Presidente Franco ou Puerto Iguazú era quase inexistente nas instituições com muita influência no futuro da cidade brasileira. Com certeza integrar assim, oficialmente entre três cidades, pode ser complicado. Mas isso não significa que dizer uma coisa e fazer outra tem muito sentido. Como minha pesquisa mostrou, nem todas as pessoas querem integração na fronteira, porém aqueles que querem têm a oportunidade de fazer mais do que possuir um discurso aberto. Podem também reorganizar o tecido urbano para mudar o funcionamento de uma área bem diversa e intricada.

 

Em pesquisas geográficas é normal usar uma metodologia quantitativa ou qualitativa. Usar a primeira geralmente significa utilizar dados oficiais para responder a perguntas acadêmicas, seja do censo, da ONU, de universidades ou de outro lugar. Usar a segunda opção, pesquisa qualitativa, normalmente significa falar com pessoas e observar o mundo sem facilmente calcular o que você observou. Os dois métodos têm valor, mas enquanto estudava em Foz vi que era necessário representar como podem funcionar em conjunto. Entender o futuro de Foz do Iguaçu e a Tríplice Fronteira não só significa predizer condições econômicas ou compartilhar anedotas. Aqui o clichê é verdadeiro, que o todo é maior que a soma das suas partes.

 

Para mim, o futuro de Foz, dos países e das pessoas da fronteira e de lugares fronteiriços é importante e inspirador. Onde há fronteira há oportunidade de aprender como e quando integrar e melhorar as formas urbanas e nacionais. Com minha pesquisa espero ter demostrado que integração é complicada e inconstante e que integrar é mais que subir o número de turistas internacionais. Integração e participação começam em vários níveis, com uma multidão de pessoas e instituições. Existem muitas perspectivas no mundo que podem informar-nos como crescer como sociedade global. Melhorar não significa sempre ganhar nossas brigas, mas com cada conflito há uma oportunidade de absorver e aprender. Em 2015 o mundo pode aprender com Foz do Iguaçu para entender como superar diferenças de várias formas, pois qual melhor professor para isso que uma das três fronteiras em uma região só?

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