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Foz do Iguaçu

Padre Arturo deixa um grande legado

Padre Arturo deixa um grande legado

18/08/2015 13:41hs
O profeta da igreja dos pobres

Na madrugada do dia 13 de julho, aos 102 anos, Arturo Paoli partiu rumo ao céu, do mesmo lugar de onde veio, na cidade de Lucca, na Itália. Anônimos para muitos, um pai para outros tantos. Foi um dos últimos grandes filósofos da Europa e também considerado o último grande “profeta” italiano, autor de diversos livros e artigos. Desenvolveu papel de sacerdote na Venezuela, Argentina e Brasil.

Em 2006, foi reconhecido na sua terra natal pelo então presidente Carlo Azeglio Ciampi com a Medalha de Ouro ao Valor Civil, por seu compromisso de salvar vidas de dezenas de jovens judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Apesar de padre, não tinha muito cunho religioso, e sim humanista.

Talvez você não saiba, mas essa personalidade morou em Foz do Iguaçu de 1986 até 2005. Todo mundo que o conhecia ficava impressionado com a simplicidade dele. Dono de um coração enorme, tratava todos de igual para igual. Foi o responsável pela criação da primeira Secretaria da Criança da cidade.

Linha do tempo

1912 – Segundo de três irmãos, nasceu em 30 de novembro de 1912 na cidade de Lucca, Itália.

1920 – Aos 8 anos, Arturo

testemunhou troca de tiros entre fascista e comunistas na Praça San Michele, que deixou mortos e feridos. A fala da mãe naquela ocasião o acompanhou pela vida: “Os homens não amam uns aos outros, a nossa tarefa é trabalhar para construir a paz”.

1936 – Graduou-se em Letras pela Universidade de Pisa, Itália.

1933/1934 – Período de dificuldade: morre um amigo próximo e a mãe. Nesse momento amadurece a escolha do sacerdócio.

1937 – Entra para o sacerdócio.

1940 – Em 24 de junho de 1940, foi ordenado sacerdote. A Segunda Guerra Mundial havia começado em 1939. Paoli e mais três jovens sacerdotes foram contratados para gerenciar o antigo Seminário de Lucca. O local se tornou um refúgio para os perseguidos pelos fascistas e nazistas. Muitos judeus foram salvos. Chegou a ser preso pelos alemães, porém um soldado desconhecido o liberou.

1946/1953 – Após a guerra, foi à capital Roma servir como vice-assistente nacional da Juventude. Começou a escrever para várias revistas.

1954/1957 – Em 1954, Arturo foi expulso da Itália após surgirem diferenças de opiniões depois de ele publicar um artigo no L’Europeo intitulado: “Esses católicos procuram novos céus e novas terras”. Foi colocado como capelão a bordo de navios de emigrantes italianos rumo à Argentina. Conheceu a comunidade Irmãozinhos de Charles Foucauld e decidiu participar. Foi para a Argélia, onde viveu por 13 meses com os “Pequenos Irmãos”.

1957 – Voltou à Itália para fundar a primeira fraternidade italiana. Mas a sua presença não era bem vista pelas autoridades da Igreja. O Vaticano preferia manter distância. A Congregação Pequenos Irmãos o convida para voltar à Argentina e dar palestras.

1960 – Fundou a primeira fraternidade na cidade de Fortín Olmos, em terras argentinas. Era o período da revolução de Cuba e mudanças políticas e religiosas. Os “Pequenos Irmãos” ficam ao lado dos pobres e sofrem diversas repressões e perseguições violentas pela ditadura. Foi nesse período em que Arturo Paoli escreveu Diálogos de Libertação, livro que foi fonte de inspiração para Gustavo Gutierrez e sua teoria da teologia da libertação. Ficou na terra celeste até 1974.

1974 – Seguiu para a Venezuela em uma missão pela fraternidade. Foi condenado por falsas acusações de tráfico de armas na Argentina e recebeu a recomendação para não voltar para lá. Ficou na Venezuela até 1984.

1984 – Ao ser convidado por um padre italiano, deixou a Venezuela e foi para São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, onde encontrou uma igreja mais perto das necessidades dos pobres e trabalhou por justiça e paz ao lado de bispos e teólogos da libertação.

1986 – Arturo Paoli chegou a Foz do Iguaçu.

2005 – Retornou à Itália, onde ficou até sua morte.

Os filhos de Arturo

Digo, porém, aos solteiros e às viúvas, que lhes é bom se ficarem como eu. Mas, se não podem conter-se, casem-se. Porque é melhor casar do que abrasar-se. 1 Coríntios 7:7-9 O apóstolo Paulo não casou. Viveu para Cristo. O padre Arturo também permaneceu solteiro, com os olhos fixos no próximo. Outra característica comum entre os dois: tiveram muitos filhos, todos do coração e da fé. Paulo orientou o discípulo Timóteo e tantos outros não revelados na Bíblia. Padre Arturo também deixou um legado marcante para muitos homens e mulheres. Dois exemplos são Reginaldo Alves da Cruz e Neldo Luis Bruxel, que conviveram com o sacerdote por quase três décadas.

Enfim, um lar

Reginaldo foi abandonado pela mãe, viveu na rua, trabalhou no Paraguai. Na adolescência, foi um dos internos do Servim – uma das primeiras instituições de Foz a abrigar meninos em conflito com a lei. Reginaldo era um dos poucos sem passagem pela polícia. Ali ele ficou parte da adolescência. Ao completar 17 anos, foi avisado de que deveria deixar o lugar. Ele “entrou em desespero”. Levaram o garoto ao padre Arturo, que ouviu o relato do rapaz. Reginaldo lembra que “ele não fez nenhuma pergunta, não olhou se era branco ou preto”. Só disse: “Aqui é a tua casa; você vai morar aqui”. E lhe entregou um molho de chaves.

Sem atrasos

A história de Neldo Bruxel é bem diferente. Ele conheceu Arturo lá no Rio Grande do Sul e depois veio trabalhar com o religioso aqui em Foz, arando a terra e produzindo alimentos – sempre para os pobres. Também foi motorista do padre. E aí, se chegasse atrasado a um compromisso, era inadmissível. Pontualidade era algo marcante na personalidade de Arturo. Era escravo do relógio. Marcou um horário, podia esperar: ele estaria lá cinco minutos antes.

Madre Terra

Neldo e Reginaldo trabalham hoje na Fundação Madre Terra, uma das entidades criadas por Arturo. Plantam, colhem e vendem alimentos para pequenos comércios, mercadinhos. Também entregam para escolas municipais e estaduais, por meio do programa Compra Direta do governo estadual e do governo federal. Seis famílias vivem assim, tiram a renda exclusivamente da terra.

Simplicidade, amor e chocolate amargo

Há muitos pontos marcantes na vida do sacerdote. Na casinha onde morava em Foz não tinha luxo. Mas existia amor à vontade pelos pobres e desamparados. Recebia todos de braços abertos. No quarto dele, apenas a cama, os livros – indispensáveis – e um copo de água. Era metódico com a alimentação. Salada não podia faltar de jeito nenhum. Depois do almoço, não dispensava um café e um pedacinho de chocolate amargo.

Caminhadas e meditação

Além de ser muito regrado com a alimentação, o padre caminhava quase todos os dias. Manteve o hábito mesmo quando apresentava dificuldades com as pernas enfraquecidas pelo tempo. Não gostava que ninguém falasse com ele enquanto andava. Era assim também quando ia meditar. Pegava algumas frutas e água, descia a barranca do Rio Iguaçu e se acomodava numa casinha pequenina. Lá permanecia sozinho das 8h às 14h. Era o tempo dedicado a Deus. Tempo de jejuar, refletir e escrever. E ele escreveu muito: mais de 30 livros e muitas cartas.

AFA Fundação Nosso Lar Fundação Charles Foucauld Fundação Madre Terra

Durante a guerra criou com outros colegas uma rede clandestina que salvou 800 judeus. Por isso ele recebeu o prêmio “Justos entre as nações”, instituído pelo Yad Vashem como reconhecimento a todos os não judeus que durante a Segunda Guerra Mundial salvaram vidas de perseguidos pelo regime nazi.

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