Contato

+55 (45) 3025-2829

Whatsapp

+55 (45) 9118-2401

Foz do Iguaçu

Os motivos que fazem de Foz do Iguaçu uma cidade atípica

Os motivos que fazem de Foz do Iguaçu uma cidade atípica
Patrícia Buche Patrícia Buche
27/06/2016 10:49hs

Fotos: Caio Coronel; Marcos Labanca; Revista 100 Fronteiras; Foz do Iguaçu e sua História – Perci Lima; Revista Memória de Foz do Iguaçu; Revista Foz do Iguaçu – Terra das Cataratas.

 

A região onde está Foz do Iguaçu foi descoberta por Alvar Núñez Cabeza de Vaca em 1542, durante uma expedição guiada por índios guaranis. Eles partiram da costa de Santa Catarina em direção a Assunção, atravessando o estado de leste a oeste até o Rio Paraná, onde Alvar descobriu as Cataratas do Iguaçu, que batizou com o nome de “Cachoeiras de Santa Maria”.

 

Mas os primeiros registros de Foz do Iguaçu datam do ano de 1880, quando os militares discutiam a descoberta da foz do Rio Iguaçu. Havia a intenção de criar uma colônia militar, já que o lugar era um ponto estratégico. Porém a ideia ficou no esquecimento até 1889, quando o ministro da Guerra nomeou a Comissão Estratégica do Paraná, da qual nasceu a colônia militar que seria o primeiro grande impulso para a ocupação de brasileiros na Região Oeste do estado.

 

Estabeleceram-se inicialmente 324 pessoas, sendo 188 paraguaios, 93 brasileiros, 33 argentinos, cinco franceses, dois uruguaios, dois orientais, um inglês e índios caingangues, que deram início à multiculturalidade de Foz do Iguaçu. Outros colonizadores vieram depois. Eram imigrantes europeus, sendo a maioria alemães e italianos que tinham como fonte de renda a produção da erva-mate e o corte de madeira.

 

Em 1905 chegou à colônia militar o coronel Jorge Schimmelpfeng. A partir do ano de 1910, pela Lei nº 1.383, a região passou a se chamar Vila do Iguassú – Distrito de Guarapuava – e foi definitivamente elevada a município no dia 10 de junho de 1914, pela Lei Estadual nº 1.783, ano em que o coronel se tornou o primeiro prefeito.

 

Segundo explica o escritor e historiador Micael Alvino da Silva, no livro Breve História de Foz do Iguaçu, Iguassu é uma palavra de origem indígena que significa grande quantidade de água. Devido ao nome do rio, toda a região da foz do Rio Iguaçu era chamada simplesmente de Iguassu, tanto nos documentos da época quanto pelas pessoas que residiam ou passavam pela região. Foi assim até 1950, referindo-se a um lugar geral e não a uma cidade ou país de modo específico.

 

Ainda segundo o livro, no Oeste do Paraná havia dois tipos de sociedade no início do século 20: a “sociedade de exploração”, na qual os obrageiros argentinos extraíam a erva-mate e madeira paranaense e a vendiam para a Europa, de forma exploratória, algo que começou em 1800 e durou até 1940; e a “sociedade em torno da colônia militar”, que foi fundada em 1889 e começou a ganhar a forma que tem hoje.

 

Ao longo dos anos a cidade foi desenvolvendo-se, mas passou por períodos turbulentos e que deixaram marcas na história. Um deles foi o ano de 1924, quando os revolucionários passaram por Foz. A maioria das pessoas não teve problemas com eles, porém a família Schimmelpfeng, em especial, sim. Isso porque o prefeito Jorge Schimmelpfeng era coronel, e os revolucionários eram conhecidos por não tolerar práticas coronelistas ou outras formas de exploração durante suas ocupações.

 

A passagem deles abalou a administração local e desmantelou o sistema de obrages. Outra consequência disso foi quando Getúlio Vargas, na Revolução de 1930, foi eleito presidente do país e incrementou as Forças Armadas, criando em Foz do Iguaçu a Companhia em Batalhão de Fronteira, em 1943, e que existe até hoje.

 

O INÍCIO DA ECONOMIA IGUAÇUENSE

 

1° Ciclo: Era da Navegação

 

- O principal meio de transporte na época era o fluvial. A navegação era feita por pequenos navios e lanchas a vapor, com acomodações para passageiros e cargas.

 

- Em 1930, a Marinha do Brasil se fez presente no Oeste do Paraná instalando uma agência em Guaíra, local onde havia um ponto de intenso tráfego fluvial pelo Rio Paraná, acima dos saltos de Sete Quedas.

 

- Três anos depois foi instalada em Foz do Iguaçu a Delegacia da Capitania dos Portos do Estado do Paraná, criada ainda em 1924 por lei federal.

 

- A navegação foi o primeiro ciclo de Foz do Iguaçu e serviu para aproximar a cidade do resto do país.

 

2° Ciclo: Madeira e Erva-Mate

 

- A erva-mate e a madeira representaram muito para o Paraná e o Brasil no início dos anos 1990.

 

- Em Foz do Iguaçu, os argentinos dedicavam-se à extração da erva e da madeira. Segundo Micael, o principal objetivo era chegar ao Porto de Buenos Aires e de lá seguir rumo à Europa. Mas para realizar esse serviço era necessária muita mão de obra, e foi aí que surgiram os obrages e obrageiros, como ele cita em seu livro. “Um obrageiro era um argentino dono de uma obrage, que era uma empresa privada responsável pela extração e transporte da erva-mate e da madeira.”

 

- Para conseguir extrair os produtos brasileiros, eles precisavam comprometer-se a abrir estradas, construir linhas férreas e outras obras visando à integração do território paranaense. Mas na prática isso não acontecia. Eles apenas pegavam o que havia de melhor em nosso estado, explorando o território até o esgotamento das riquezas nativas e depois partindo para outra região, deixando o lugar totalmente desmatado.

 

PONTE INTERNACIONAL DA AMIZADE

 

- Em 29 de maio de 1956, Brasil e Paraguai realizaram um acordo para construir uma ponte sobre o Rio Paraná que ligaria os dois países pelas cidades de Foz do Iguaçu e Ciudad del Este.

 

- No dia 7 de setembro daquele ano, o presidente paraguaio Alfredo Stroessner sancionou a Lei nº 390.

 

- No dia 14 de novembro, Juscelino Kubitschek assinou o Decreto nº 40.350 que criou a Comissão Especial da Construção da Ponte Internacional da Amizade.

 

- O início das obras foi em 1957; e a conclusão, em 1965.

 

- A ponte possui 553 metros de comprimento e um vão livre de 290 metros.

 

- A construção foi um fator decisivo na atração de investimentos e negócios entre os dois países. Embora se tratasse de uma obra para diminuir a importância do Rio Paraná como acesso à região, não era possível ignorar o tráfego de barcos. Como explica Micael, “o arco que possibilita o vão no centro da ponte não é apenas um detalhe da arquitetura, trata-se de uma solução à intensa navegação, capaz de proporcionar o tráfego de barcos mesmo nos casos de cheia do rio”.

 

PONTE INTERNACIONAL TANCREDO NEVES

 

- Com a intenção de estreitar os laços entre Brasil e Argentina, em 1972 começou a preparação para a construção de uma ponte sobre o Rio Iguaçu que ligaria as cidades de Foz do Iguaçu e Puerto Iguazú.

 

- A pedra fundamental foi lançada em 13 de janeiro de 1982, após os presidentes João Figueiredo, do Brasil, e Reynaldo Bigmone, da Argentina, decidirem construir a obra.

 

- Foi inaugurada no ano de 1985 pelos presidentes José Sarney e Raúl Alfonsim.

 

- Possui 489 metros de comprimento e um vão livre de 220 metros, além de 16,50 metros de largura e 72 metros de altura.

 

- A obra teve como intenção promover o comércio entre os dois países.

 

- O nome inicialmente era Ponte da Fraternidade, mas passou a se chamar Ponte Tancredo Neves em homenagem ao presidente brasileiro da época que se elegeu, mas morreu antes de assumir o cargo.

 

ITAIPU BINACIONAL

 

- Em 1961, no governo de Jânio Quadros, apareceu o primeiro esboço do projeto de construção de uma usina para aproveitar o potencial hidrelétrico das Sete Quedas de Guaíra, no Rio Paraná.

 

- Inicialmente, o projeto incluía somente o Brasil, mas conforme o “Tratado de Limites”, assinado pelos dois governos em 1872, o Rio Paraná pertence aos dois países e, portanto, para que houvesse a construção de uma usina, as duas partes deveriam aprovar.

 

- Após conversas com o presidente do Paraguai, Alfredo Stroessner, os dois países assinaram, em 22 de junho de 1966, o “Ato do Iguaçu”, comprometendo-se a promover a correta demarcação da fronteira em Guaíra.

 

- No ano de 1973, mais precisamente em 26 de abril, os presidentes Emílio Médici e Alfredo Stroessner assinaram o “Tratado de Itaipu”, comprometendo-se a construir a usina. Criaram, assim, a entidade Itaipu Binacional, com diretoria empossada em maio de 1974.

 

- A construção da hidrelétrica começou em 1975 e empregou uma mão de obra que, no ápice do trabalho, atingiu cerca de 40 mil trabalhadores. Se comparada à população de 1960 (28.212 habitantes), registrou-se um crescimento de 383% no total de moradores do município em apenas 20 anos.

 

- A obra foi concluída em 6 de maio de 1991, quando entrou em funcionamento o 18º gerador, e a usina foi inaugurada pelos presidentes Fernando Collor, do Brasil, e Andrés Rodríguez, do Paraguai.

 

- Por causa da construção muitas pessoas se instalaram na cidade, o que fez com que a Itaipu criasse três bairros para abrigar os funcionários da usina. Os bairros Vila A, B e C existem até hoje e, segundo o livro de Micael, atualmente a questão da moradia passou a ser um problema administrativo para a Itaipu, e os serviços passaram a ser de responsabilidade da prefeitura.

 

TURISMO DE COMPRAS

 

- A ligação entre Brasil e Paraguai proporcionou expansão ao comércio exportador. A cidade do país vizinho se tornou o segundo maior centro urbano, e pessoas de todos os lugares passaram a vir a Foz do Iguaçu com a intenção de atravessar a ponte e fazer compras no Paraguai.

 

- Notou-se uma significativa elevação na demanda de produtos eletroeletrônicos por parte dos compristas brasileiros. Isso determinou o direcionamento de mais investimentos dos comerciantes instalados no Paraguai, principalmente de origem árabe e asiática, e na estrutura comercial de Ciudad del Este.

 

- No lado brasileiro da fronteira, o turismo de compras assumiu uma parte da economia local, pois movimentou hotéis, restaurantes, lanchonetes, agências de turismo e outras prestadoras de serviços, bem como absorveu parte dos trabalhadores do município.

 

Fotos: livros Foz do Iguaçu e sua História – Perci Lima; Foz ‘80’ anos; Revista Memória de Foz do Iguaçu; Assessoria de Imprensa do Parque Nacional do Iguaçu/Cataratas do Iguaçu S.A.

 

PARQUE NACIONAL DO IGUAÇU

 

- Em 1910, Jesús Val era proprietário das terras à direita dos Saltos de Santa Maria. Lá estavam as Cataratas do Iguaçu, em propriedade particular.

 

- Em 1916, Alberto Santos Dumont chegou a Foz do Iguaçu e encontrou as Cataratas. Encantado com a beleza do lugar e sabendo que era de propriedade particular e que não havia um acesso para chegar até lá, solicitou ao governo do estado que se tornasse público.

 

- Em 28 de julho de 1916, o então presidente da província do Paraná, Affonso Alves de Camargo, assinou o decreto de desapropriação das terras de 1.008 hectares.

 

- Em 1919 foi assinada a Escritura Pública de Venda, e somente em 19 de janeiro de 1939 um decreto federal, o de nº 1.035, do então presidente Getúlio Vargas, oficializou a propriedade como Parque Nacional do Iguaçu, o segundo do país, unido pelo Rio Iguaçu ao Parque Nacional Iguazú, na Argentina.

 

- A Unesco o declarou Patrimônio Natural da Humanidade em 1986.

 

- O parque possui 185.262,5 hectares, abrigando o maior remanescente de floresta atlântica da Região Sul do Brasil, protegendo uma riquíssima biodiversidade.

 

- E hoje as Cataratas do Iguaçu são conhecidas mundialmente como uma das Sete Novas Maravilhas da Natureza.

 

PRIMEIRO AEROPORTO DE FOZ DO IGUAÇU – GRESFI

 

- Em 1935, Foz ganhou o primeiro campo de pouso de pequenos aviões, construído pelos militares do 34º Batalhão.

 

- A primeira aterrissagem ocorreu no dia 23 de março, quando foi inaugurada a linha Curitiba–Foz.

 

- Mas a inauguração oficial do campo de aviação ocorreu somente no dia 1º de abril do mesmo ano.

 

- No ano de 1941 foi inaugurada a estrutura do aeroporto do Parque Nacional do Iguaçu, ficando sob administração do Ministério da Agricultura.

 

- No dia 17 de abril de 1949, a estação de comunicação começou a funcionar, também no Gresfi, e devido ao aumento no número de passageiros surgiu a ideia de fazer um novo e amplo espaço. Assim, o aeroporto do Parque Nacional foi transferido para a Rodovia das Cataratas.

 

- O projeto do novo aeroporto foi iniciado em 1949, e as obras ficaram prontas em 1966.

 

- Instalada nas proximidades da BR-469, uma pista asfaltada foi inaugurada em 1967, mas somente em 1972 foi ativada a Torre de Controle de Tráfego Aéreo (TWR) do aeroporto internacional.

 

- E em 7 de janeiro de 1974, o terminal passou a ser administrado pela Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero).

 

ELES DEIXARAM A SUA MARCA EM FOZ DO IGUAÇU

 

A história de uma cidade, antes de tudo, é feita por pessoas. Por isso, a Revista 100 Fronteiras resgatou os pioneiros que contribuíram para o início e o desenvolvimento de Foz do Iguaçu.

 

 Os motivos que fazem de Foz do Iguaçu uma cidade atípica

Parque Nacional do Iguaçu

 

 Os motivos que fazem de Foz do Iguaçu uma cidade atípica

Ponte Internacional da Amizade

 

 Os motivos que fazem de Foz do Iguaçu uma cidade atípica

Itaipu Binacional

 

 Os motivos que fazem de Foz do Iguaçu uma cidade atípica

Primeiro Aeroporto de Foz do Iguaçu - Gresfi

 

 Os motivos que fazem de Foz do Iguaçu uma cidade atípica

Ponte Internacional Tancredo Neves

 

 Os motivos que fazem de Foz do Iguaçu uma cidade atípica

Madeira e Erva-Mate

 

 Os motivos que fazem de Foz do Iguaçu uma cidade atípica

Era da Navegação

 

 Os motivos que fazem de Foz do Iguaçu uma cidade atípica

Turismo de Compras

 

Para saber mais leia o livro: Breve História de Foz do Iguaçu

 

É insistir no óbvio que os historiadores são movidos pelos problemas do presente. Inevitavelmente, a vivência na Tríplice Fronteira nos possibilita refletir sobre inúmeros problemas. Particularmente, desde a minha formação inicial, interessou-me compreender como nos tornamos parte de uma grande comunidade local e, ao mesmo tempo, regional e internacional com múltiplas faces, conexões e contatos.

 

No exercício da docência, fui desafiado a ensinar sobre a história de Foz do Iguaçu. A constatação da ausência de uma síntese histórica que possibilitasse uma discussão para além da narrativa padrão (baseada em fatos políticos e em memórias selecionadas) impôs certamente o mais instigante dos desafios: era preciso fazer uma rigorosa pesquisa sobre as mais diversas fontes. O resultado deste trabalho, que se estendeu por alguns semestres, foi apresentado no livro Breve História de Foz do Iguaçu.

 

Destinado ao público geral, os leitores interessados na temática têm à disposição uma síntese que propõe uma análise complexa sobre a região desde o período colonial. Publicado como parte das comemorações do centenário da emancipação política, o livro continua um convite a permanente às comemorações. Que o aniversário dos 102 anos de Foz do Iguaçu, comemorados no próximo dia 10, permita-nos refletir sobre a construção de um futuro.

 

 

Micael Alvino da Silva

Doutor em História pela Universidade de São Paulo

Mestre em História pela Universidade Estadual de Maringá

Professor da área de Relações Internacionais na UNILA

Coordenador do curso de pós-graduação em Relações Internacionais Contemporâneas (UNILA)

Pesquisador do Grupo de Pesquisa em Política Internacional de Fronteira (UNILA)