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Foz do Iguaçu

O Caminho de Peabiru

O Caminho de Peabiru
Patrícia Buche Patrícia Buche
23/05/2017 14:39hs

Não se sabe muito bem qual é a origem do Caminho de Peabiru, mas historiadores destacam algumas hipóteses e curiosidades sobre sua construção. Segundo o historiador e professor da Unila Clovis Antônio Brighenti, uma das teorias atribui seu surgimento aos grupos humanos de tradição arqueológica itararé, que seriam os antecessores dos povos indígenas contemporâneos caingangues e xoklengs. A segunda hipótese é que o caminho teria sido aberto por grupos guaranis que migraram do Oeste para o Leste há 900 anos. Uma terceira possibilidade é a trilha ter sido construída pelos incas, porque desejavam atingir o território interiorano e o Atlântico. No entanto, a jornalista, pesquisadora e escritora Rosana Bond discorda dessa tese, uma vez que esses povos são mais recentes, o que não coincide com a antiguidade da Peabiru. “Os incas usaram os caminhos de Peabiru, mas não foram os construtores. Eles foram em busca do nascer do sol, em direção ao Atlântico. Quando viram a estrada pronta, a ideia era chegar até o Sul do Brasil, por isso foram construindo infraestrutura preparatória ao longo das trilhas”, destaca ela em uma palestra que ministrou na Unila em 2014.

 

Assim, as características do caminho dão a entender que a origem está mais ligada ao povo guarani. Isso porque se olharmos para a dinâmica de povos como os guaranis que habitavam desde o litoral atlântico até os pés dos Andes é fácil concluir que as relações ocorriam por vias terrestres, já que nem tudo era possível atingir por rotas fluviais. Para eles, Peabiru era um caminho sagrado.

 

“Pode não ter sido construído exclusivamente por um único povo, mas pelas características ele tem muito de guarani, por cruzar o território desse povo e pela forma como os guaranis construíam seus caminhos plantando uma espécie de gramínea que não deixa outras plantas se desenvolverem, mantendo o caminho limpo, também encontrada nos demais caminhos guaranis”, destaca o historiador.

 

Daí vem a origem do nome Peabiru, que é uma corruptela da palavra guarani tapé avirú, na qual tapé significa caminho; e avirú, o som da gramínea amassada sob os pés. O Caminho de Peabiru foi aberto no meio da mata virgem. Com mais de um metro de largura, possui cerca de quatro mil quilômetros ligando o Atlântico ao Pacífico, e sua função, pelo que tudo indica, era facilitar as migrações de caráter religioso dos guaranis e de outros povos como os incas.

 

O Caminho de Peabiru

Segundo Brighenti, os primeiros europeus que chegaram à Bacia do Prata fizeram uso desses caminhos e os registraram em suas crônicas. Três figuras se destacam nessas aventuras. A primeira delas é Aleixo Garcia, náufrago da expedição de Juan Díaz de Solís, que foi acolhido pelos guaranis da costa atlântica e ficou por vários anos convivendo com eles. Durante a convivência, ouviu falar das minas de prata e do rei Branco. Partiu com os guaranis do litoral atlântico (hoje Santa Catarina) até Potosí. Na volta foi atacado por grupos rivais e faleceu sem retornar ao litoral.

 

Pouco mais tarde, em 1541, Alvar Nuñez Cabeza de Vaca percorreu o caminho entre Santa Catarina e Assunção com 250 homens e 26 cavalos, guiado pelos guaranis, percurso feito quase inteiramente por terra, por caminhos pré-coloniais. Um terceiro aventureiro a usar os caminhos pré-coloniais foi Ulrich Schmidl, em 1567, quando fez o trajeto inverso, saindo da capital paraguaia em direção ao litoral de São Paulo pelas trilhas indígenas.

 

Vale destacar que os três não seguiram o mesmo caminho, pois havia diferentes rotas. “Há pesquisadores que afirmam que o Peabiru era um caminho bem particular, que servia unicamente para rotas de migrações religiosas. Isso é difícil de comprovar, no entanto o que é possível afirmar nesse momento é a existência de diversos caminhos que ligaram norte e sul e o Atlântico ao Pacífico”, explica.

 

Percurso

O Caminho de Peabiru possui cerca de quatro mil quilômetros. No litoral ele tinha duas entradas, uma no litoral norte de Santa Catarina e outra em Cananeia (SP). Os dois ramais se encontravam no Norte do Paraná, formando um único caminho que rumava em direção a Guaíra. Este seguia pela região fronteiriça e adentrava a Bolívia até Santa Cruz, dividindo-se depois em ramais para Cusco e para a Região Norte do Chile. Segundo a pesquisadora Rosana, Peabiru era ainda uma imitação do sol na terra, segundo a visão de que o deus sol nasceria no Atlântico e morreria no Pacífico.

 

Um dos ramais passava por Foz do Iguaçu, pelo qual passou Cabeza de Vaca em 1542, quando os guaranis mostraram a ele a existência das Cataratas. “Hoje se diz que ele foi o descobridor das Cataratas, mas é justamente ao contrário, foram os guaranis que mostraram a ele as quedas”, relata o professor. Nos ramais do Paraná o caminho passava por cidades como Francisco Beltrão, Maringá, Campo Mourão, Foz do Iguaçu e, ainda, o município Peabiru.

 

Clovis não chegou a percorrer o caminho, mas conheceu pequenos trechos em Santa Catarina. Segundo ele, dificilmente a passagem será reativada, pois não existe mais. “Os europeus destruíram tudo o que havia. A ganância do enriquecer fez com que ignorassem por completo e destruíssem as referências indígenas na América. Por outro lado, os indígenas contemporâneos, especialmente os guaranis, seguem fazendo suas rotas migratórias, sua busca da ‘terra sem mal’ por outros caminhos, mas mantendo o objetivo primeiro que é encontrar a terra boa onde possam viver o penderekó, os costumes guaranis. Portanto, os guaranis estão lutando para garantir suas terras, recuperar seu território e desenvolvendo ações e mobilidade a partir de outros mecanismos”, finaliza.

 

“É importante para nós, como humanidade, sabermos da história de nossos antepassados, mesmo que não parentes sanguíneos, mas parentes pela condição humana. Saber que não somos os mais desenvolvidos, ao contrário, somos uma geração que mais tem destruído o planeta e que muito pouco aprendemos dessas sociedades antigas. Alguns desejam reabrir o caminho para fins de turismo, como ocorre com o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. Minha opinião é que se tiver caráter puramente turístico para alguns lucrarem com esse caminho, melhor não continuar as pesquisas, porque estariam contrariando as origens do caminho”, enfatiza.

 

O caminho em Foz do Iguaçu

Não se tem uma confirmação exata do local por onde passava o Caminho de Peabiru em Foz. No entanto, segundo a pesquisadora Rosana Bond, o ramal que cortava a cidade chegava a Assunção, no Paraguai. Esse percurso foi feito por Cabeza de Vaca quando ele chegou a Foz do Iguaçu guiado pelos índios em 1542. Não se pode ter certeza, mas Rosana destaca que naquela época ele veio pelo Rio Iguaçu e por pouco não caiu nas Cataratas. Em seguida foi guiado pelos índios e desceu a mata rumo ao Rio Paraná, em que hoje se encontra a Ponte da Amizade. Dali partiram rumo ao Salto Monday.

 

 

Revista Peabiru

 

Em 2011 foi criada a Revista Peabiru pela gaúcha Michele Dacas que tem formação, mestrado e doutorado na área de comunicação. A Revista faz parte de um projeto de extensão da Unila e leva esse nome por representar a ideia do projeto que é ter ligação com a história e cultura da América Latina.

De revista on-line, a publicação foi expandindo-se. Virou cordel (varal) e atualmente é também impressa. Está em sua 20ª edição e já conta com duas versões impressas. Tem 2.700 tiragens e é distribuída em toda a América Latina. “São seis anos de revista, e eu vejo que hoje ela é importante. Ela possui uma linguagem acessível ao público, mistura fotos, textos e ilustrações”, explica.

 

Michele Dacas é fundadora, coordenadora e editora da Revista Peabiru. Trabalha na área de Relações Públicas da Unila. É formada em Comunicação com mestra

 

 

Por: Patrícia Buche

Colaboração: Clovis Antônio Brighenti

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