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Foz do Iguaçu

Memórias: Guilhermina Pastorelo

Memórias: Guilhermina Pastorelo
Annie Grellmann Annie Grellmann
14/01/2014 10:10hs
Lembranças de uma filha de imigrantes em Foz do Iguaçu

Guerra, preconceito, perdas e ganhos são palavras que resumem bem a história da família pioneira, que nunca desistiu de lutar. A realidade dos primeiros estrangeiros na cidade foi mais dura do que se pensa

Dona Guilhermina Pastorelo, 74 anos, é um arquivo vivo sobre a história de Foz do Iguaçu. Filha de pioneiros europeus, o pai holandês, Seu Marten, chegou ao Brasil em 1912, vindo da Alemanha. A mãe, Dona Marta, era alemã e veio para cá aos 9 anos de idade.

Os pais se conheceram em Cruz Machado, Paraná. Na época, o governo brasileiro trazia as famílias de outros países e as espalhavam em lugares para colonização. Nem todos se adaptavam, muitos holandeses voltaram para o país natal, mas o pai de Dona Guilhermina ficou.

Em 1924 eles se casaram e depois tiveram os dois primeiros filhos em Cruz Machado, antes de mudar para Foz em 1928, depois, adotaram uma menina. Conheceram a região trinacional através do avó paterno de Guilhermina, que tinha vindo visitar e ver as terras - atitude muito comum de quem trabalhava com plantio, viajar e desbravar lugares a procura de solo fértil.

O primeiro batalhão de fronteira do exercito já estava em Foz quando a família chegou, e por ordem do Governo Federal, os militares davam terras para quem desejava plantar, era de graça, mas com uma condição: pagar aos soldados uma renda da colheita para a manutenção. A quantidade de terra doada dependia do tamanho da família. Os pais de Dona Guilhermina receberam 4 alqueires de terra, aproximadamente 100.000 m².

Eles se estabeleceram na região onde hoje está o Hotel Carimã, em Foz. Foi lá que Dona Gulilhermina e mais 5 irmãs nasceram e se criaram. “Tinha uma escolinha onde estudávamos, tudo era ao redor da nossa casa”, lembra.

A guerra

Em 1942, começaram os problemas com a guerra, e como só falavam alemão, eram alvos de críticas e dúvidas, se apoiavam as atrocidades da Alemanha ou não. A região da fronteira ficou perigosa para a família. A fama de Adolfo Hitler havia se espalhado, dando-se dólares por cabeça de imigrantes alemães pelo mundo.

Para azar da família, Seu Marten recebia um jornal alemão de São Paulo, que vinha da Argentina. Acusado de espionagem, foi preso por 20 dias. Ele se defendia dizendo que não era alemão, e que os filhos eram brasileiros. Depois de se livrar da acusação, por motivos de segurança, foi dada a ordem - dos militares - para os estrangeiros saírem de Foz. Os destinos tinham que ser: Argentina ou qualquer lugar a 300 km longe da fronteira. Havia polonês, holandês, italianos e alemãs na cidade.
A carroça

Guarapuava foi o lugar mais fácil para fugir, e a família de Dona Guilhermina decidiu ficar no Brasil. Para isso, o pai adaptou uma carroça para a longa viagem. Foram 28 dias por uma estrada precária, com muitas paradas. Antes de partirem, um irmão saiu na frente, o resto da família o acompanhou. Uma das irmãs de Guilhermina era tetraplégica, ela precisou viajar deitada, ocupando muito espaço. Os outros se revezavam entre caminhar e descansar na carroça - eram 8 filhos, 7 mulheres e um homem.

Em algumas subidas, os cavalos exaustos não conseguiam puxar a carroça, a mãe e as irmãs de Guilhermina usavam tabuas de madeira e colocavam por baixo das rodas para servir como freio, assim os animais podiam descansar um pouco.

Para sustento na longa jornada, Seu Marten, pai de Guilhermina, comprou feijão e arroz na Argentina. Ele matou um porco e fez salames o suficiente para toda família consumir. O que ele não esperava era o calor escaldante do verão, que estragou todo alimento derivado de carne. Com muita tristeza, eles jogaram tudo fora.

Dona Marta, a mãe, tinha uma cadela de estimação chamada Fortaleza. O animal achou comida estragada e comeu sem parar, horas depois ela morreu, causando mais tristeza em um momento tão difícil. Em Guarapuava, eles adotaram uma cadelinha e também a chamaram de Fortaleza.

“Tínhamos que parar para tudo”, quando chovia ou precisavam dormir e cozinhar, eles ficavam em galpões de tropeiros pela estrada velha de Guarapuava, hoje Felipe Wandscheer. Ela diz que não tiveram problemas com doenças graves pelo caminho, a saúde da família vinha da boa alimentação que eles tiravam da terra, isso deu forças para resistirem às dificuldades da jornada. O único perigo eram os índios.

Em 1945 eles puderam voltar para Foz do Iguaçu, e dessa vez apenas o pai retornou de carroça. A esposa e os filhos regressaram de caminhão junto com a família Nadai, que eram italianos e tiveram que fugir também. Foram três dias de viagem, era preciso cozinhar e parar para dormir.

Após três anos de espera, a volta à Terra das Cataratas foi satisfatória, eles haviam deixado um amigo militar morando na casa, evitando perdas. Com o fim da guerra, a vida teve que ser recomeçada. O pai de Guilhermina era carpinteiro, construía pontes, móveis e casas, ele tinha um galpão onde trabalhava. Na época, a madeira estava no auge, e a região do Porto Belo era movimentada pelo comércio madeireiro.

Com 7 anos de idade, Dona Guilhermina estudou numa escolinha no terreno de casa, momento em que ela e os irmãos aprenderam o português. Em 1948, ela frequentou a primeira escola do município, a “Escola Isolada”, no Carimã, nome dado devido ao isolamento do lugar com relação ao centro de Foz. “Eram três turmas na mesma sala, e um professor para todos, ele morava na estrada velha de Guarapuava, e mesmo na chuva vinha a pé ou de bicicleta”, lembra.

No 4º ano ela parou de estudar, não tinha mais opção na cidade, decidiu ajudar a mãe com os afazeres do lar e cuidar da irmã, que era cega e não andava. “Era preciso dar comida na boca dela e tudo, foram anos difíceis”, recorda. A irmã, mesmo com dificuldades, conseguiu chegar aos 42 anos, prova do amor da família.

A cidade não tinha muito a oferecer quando Guilhermina era criança, sabugos de milho viravam bonecas, qualquer tampa e lata ou objeto poderia ser usado em brincadeiras.

A família tinha bons amigos, Seu Martem tocava sanfona com um grupo, eles faziam festas em clubes. Um dos lugares que deixaram saudades para ela foi o extinto Oeste Paraná Clube. A cidade começou a crescer um pouco com a chegada do Gresfi e do aeroporto.

Em 1951, com a inauguração do Colégio Bartolomeu Mitre,a nova turma não estava completa, faltavam alunos para fechar. A escola teve a ideia de procurar por candidatos. Eles ficaram sabendo que tinha uma família no Carimã com crianças sem estudar. Apenas Dona Guilhermina, com 17 anos de idade, e a irmã gêmea, Elizabeth, concordaram em voltar para a escola, que chamavam de “Escola Normal”, pois era no centro e tinha uma estrutura completa, diferente das outras isoladas. Elas se formaram em 1956 no primeiro grau.

Com a conclusão do curso, Dona Guilhermina já era habilitada a dar aulas para o primário nas escolas “isoladas”. O pai, seu Marten, para incentivar os estudos na região, doou 100x100 de terra boa, perto da casa onde moravam, para a prefeitura construir uma escola. Ele e os vizinhos ajudaram na construção com duas salas. Uma das irmãs dela também dava aulas, mesmo sem o certificado, pois a necessidade era grande, e quem tinha algum conhecimento não podia desperdiçá-lo.

As Cataratas do Iguaçu são uma paixão de Dona Guilhermina, lugar que visitou pela primeira vez com sete anos de idade. Foi num passeio de três horas de carroça conduzido pelo pai, em 1946. Os acessos às quedas eram alternativos. No Porto Canoas tinha um galpão onde passavam o dia todo festejando e tomando banho. Os visitantes chegavam de bicicleta pelo Salto Floriano, outros se arriscavam por outras trilhas perigosas, que ceifaram muitas vidas. Para se evitar mortes, algumas trilhas foram interditadas.

Dona Guilhermine já escreveu três poesias sobre as quedas.Segundo ela, quase não tinha turista. “As pessoas não sabiam, quando o povo de Foz começou a viajar para outras cidades, eles falavam das quedas, assim gerava interesse”.
O auge das Cataratas começou com a visita do ilustre Santos Dummont, ele entendeu que o lugar deveria ser um patrimônio da humanidade e não particular. O processo de aquisição da terra demorou, mas ele conseguiu.

Na época, a entrada das Cataratas era um museu do Parque Nacional. Nele havia plantas e animais, e visitantes podiam tirar fotos sentados em uma onça empalhada. A usina de São João, a primeira de Foz, também era outra atração.

Ela diz que a Vila Yolanda era só mato, quando a família comprava um terreno, tinha que limpar tudo do zero. “É incrível como a cidade explodiu tão rápido nos últimos anos”. Com a chegada dos hotéis, a Hidrelétrica de Itaipu e a Ponte da Amizade a cidade se expandiu.

Com as economias a família comprou uma chácara em Aparecidinha, Três Lagoas, depois um trator, que é usado até hoje. Quando os 11 filhos - 7 homens e 4 mulheres - começaram a estudar, tiveram que ficar no centro. A rua onde moram no início não tinha asfalto, quando passava um carro a poeira cobria as casas, até as crianças ficavam cobertas de terra, mesmo quando estavam no berço dormindo.

Aos poucos os moradores instalavam obstáculos para diminuir a velocidade dos carros. Depois do asfalto, a rua ficou sem saída e virou uma quadra de esportes para os filhinhos, com seus mais de 2 metros de altura, que são feras no vôlei.

Antes a fronteira era aberta, alguns iam de canoa para a Argentina comprar comida, mesmo com um limite de 5 itens por pessoa - os produtos eram mais baratos. A comida chegava a Foz por um navio, conhecido como Mata Fome. Todos corriam e sofriam pra comprar as especiarias que chegavam, não dava para todos.

Dona Guilhermina diz que não tinha muito o que fazer no Paraguai, mas quando visitavam um tio, eles aprendiam o espanhol. A família dela era muito unida, o pai passava mais tempo brincando com os filhos, assim, a mãe tinha condições de cuidar da filha doente. “Nosso pai nos ensinou que deveríamos sempre pagar impostos, para cobrar nossos direitos”. Curiosamente era cobrado imposto para carroça e bicicleta.

O casamento

Ela se casou em agosto de 1958. O marido, Seu Dirceu Pastorelo, veio de família de italianos muito conhecida em Foz do Iguaçu - ele faleceu em 2011. A mãe de Guilhermina vendia alimentos - leite, manteiga, mandioca e doces na cidade, uma vez por semana.

A mãe de Seu Dirceu tinha um bar chamado “Bar Amarelinho” - hoje é uma farmácia na esquina do Boicy, em frente ao supermercado. Eles não vendiam apenas bebidas, mas de tudo. Dirceu tinha chegado da chácara da família onde ajudava o pai, para se apresentar no exército. Foi aí que os dois se conheceram, enquanto Guilhermina e a mãe vendiam os produtos no bar.

Para se casar, o que a pessoa na época mais precisava era da permissão da família, não eram anos de namoro como hoje. Após o casamento, eles foram morar no Boicy - a pracinha de lá hoje leva o nome do sogro de Guilhermina.

Seu Dirceu trabalhou dois anos e meio na escola agrícola, depois voltou para a chácara. Com o passar do tempo e o crescimento da cidade, eles tiveram que vender o terreno no Boicy, devido ao asfaltamento da Avenida das Cataratas para ligar com o Porto Meira. O lugar foi herança que Seu Dirceu recebeu dos pais.

“Foi uma tristeza para muitos, pois a prefeitura pagava muito pouco, vendemos nosso terreno por 58 mil cruzeiros e tivemos que comprar outro na Vila Yolanda por mais de 200 mil”, lamenta.

A cidade

Quando Dona Guilhermina tinha 13 nos de idade, ela lembra que Foz era só poeira e mato. A cidade tinha um calçamento em toda a avenida das Cataratas, percurso que usava para ir à escola “normal” de bicicleta. O tão esperado asfalto demorou muito para chegar, e quando chegou, mudou a vida da família para pior, devido à venda da terra.
Para lazer eles tinham bailes, as famílias se reuniam para festejar, até a sala de quem tinha casa grande servia como salão de festas. Aos domingos as famílias alemãs faziam brincadeiras. Todo dia 25 de julho havia uma grande celebração dos imigrantes.

Nem tudo era só alegria. Um dos motivos da comunidade de estrangeiros ficar mais fechada foi a descriminação. Após a guerra, veio a rejeição, eles foram chamados de “Quinta coluna” pelos brasileiros, pois quando vinham alimentos de fora, eram os últimos da fila para adquirir. “Hitler fez besteira e a gente pagou por isso”. Havia miséria e fome em Foz depois da guerra.

A modernidade

A TV não era acessível na cidade, para isso, eles iam para Cascavel, assistir a jogos e novelas. Quando algumas famílias começaram a possuir o aparelho, eles se reuniam na casa de parentes para assistir a algo. “Percorríamos 17 km de carroça até a casa da minha sogra para assistir à TV”, recorda. A primeira Televisão que a família de Guilhermina comprou trouxe alegria, mas eles não a assistiam muito, a luz era cara e o aparelho sugava muita energia. Programas como: Sílvio Santos e Bozo eram apreciados por todos. “A vida era simples, sem luxo, mas boa”.

Para se ter energia elétrica, o consumidor tinha que pagar por tudo, instalação e materiais, como fios, postes, transformador, até o local desejado. Dona Guilhermina diz que a geração de hoje não poupa muito. “Tudo querem comprar, não investem em terreno”.

O que ela mais sente falta da época é a amizade e a união familiar. “A liberdade que tinha com os amigos sem o medo do perigo e da violência”. Eles dormiam no Boicy de janela aberta no verão. Ela diz que teve uma infância de ouro, e que os pais hoje nem têm tempo para os filhos. Guilhermina tem 13 netos e uma bisneta com 5 anos.

Quando os filhos cresceram, ela voltou a escrever, ela diz que sempre foi boa em redação. Outro hobby de Guilhermina é a pintura em tela, começou a pintar em tecidos e depois mudou para telas.

Em 2005, a irmã Elizabeth Nellma eternizou a história da família em um livro intitulado “Filha de Imigrantes”, que foi disponibilizado apenas para parentes e amigos. Dona Guilhermina sempre tem uma história para contar de Foz do Iguaçu. Veículos de comunicação local gostam de convidá-la para entrevistas e com simpatia e disposição ela atende aos convites e contribui.“Foz do Iguaçu é uma cidade maravilhosa, e creio que ainda vai melhorar mais. Hoje vivo em Paz”.

Linha do tempo
1925- Casamento dos pais
1928- Chegada a Foz
1939- Dia do nascimento de Dona Guilhermina,
1942 Êxodo da fronteira
1945- Retorno a Foz
1946 – Primeira visita às Cataratas
1948 Guilhermina começa a estudar
1951- Retorna a escola
1956- Formatura
1958- Casamento
1959- Nascimento de Tania
1960- Nascimento de Djalma
1961- Nascimento de Edna
1963- Nascimento de Diomedes
1965- Nascimento de Amélia
1967- Nascimento de Ezidoro
1969- Nascimento de Ozorio
1971- Nascimento de Marta
1973- Nascimento de Jerson
1974- Nascimento de Emerson,
1977- Nascimento de Junior
2011 morte do marido

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