Contato

+55 (45) 3025-2829

Whatsapp

+55 (45) 9118-2401

Foz do Iguaçu

Em busca da terra prometida

Em busca da terra prometida
Patrícia Buche Patrícia Buche
22/08/2016 10:57hs

Colaboração: Luiz Carlos Gambetta

Fotos: Aquivo

 

Vivemos em uma região de tríplice fronteira. Aqui em Foz do Iguaçu, convivemos diariamente com várias etnias e temos a facilidade de estar em outro país apenas cruzando uma ponte. Essa aproximação entre os três países não está ligada somente às esferas geográficas, mas também ao convívio social entre brasileiros, paraguaios e argentinos. E entre tantos fatores que unem a região da fronteira e caracterizam o local como único, um deles é a migração de brasileiros que, há muito tempo, saíram do Brasil para construir a vida no Paraguai.

 

Segundo estudos feitos pelo geógrafo Luiz Carlos Gambetta, um dos motivos que impulsionaram a entrada de brasileiros no Paraguai foi a Guerra da Tríplice Aliança (1865-1870), pois esse conflito devastou a população paraguaia, deixando as regiões periféricas vazias. Antes da guerra, o sistema agrícola paraguaio era baseado na produção familiar, que garantia certa independência ao país, emergente em termos regionais.

 

A guerra destruiu essa base econômica, obrigando o Estado a vender as “terras fiscais” para pagar dívidas que o conflito deixou. Além de esvaziar as regiões de fronteira, hoje ocupadas pelos brasileiros, a Guerra da Tríplice Aliança também fez surgir o latifúndio, o que prejudicou o povoamento da região fronteiriça, bem como a modernização da agricultura paraguaia.

 

Por esses motivos, o Paraguai precisava repovoar seu território e reerguer-se economicamente. A solução encontrada era atrair imigrantes para ocupar as terras improdutivas. Mas foi somente no fim dos anos 1950, com a aproximação dos governos militares do Brasil e Paraguai, que foram criadas condições para despertar o interesse de agricultores brasileiros, os quais começaram então a ocupar de forma lenta, porém contínua, a imensa fronteira paraguaia.

 

Primeira fase

 

Na primeira fase da migração, nos anos 1960, as vias de comunicação entre os dois países eram precárias e reduzidas. A Ponte da Amizade ainda não havia sido construída, sendo que a maior parte dos intercâmbios e comunicação era feita por meio de balsas pelo Rio Paraná ou pela fronteira seca no Mato Grosso do Sul. Por isso, o maior fluxo de pessoas naquele tempo se deu de Foz do Iguaçu para Alto Paraná, e os primeiros migrantes atravessavam de barco o Rio Monday para chegar aonde é hoje Los Cedrales.

 

Esses brasileiros, que vinham de várias partes do país, arrendavam terras no Paraguai ou compravam pequenos lotes, pois como não tinham condições de ficar aqui no Brasil, encontravam no país vizinho melhores condições para viver. O que os atraiu para o outro lado da fronteira foi a terra virgem e de boa qualidade, como também o seu preço.

 

Em sua tese de doutorado, Luiz cita que “os preços das terras no Paraguai eram significativamente mais baratas que no Brasil, sendo que um agricultor que vendia um alqueire aqui podia, com o mesmo dinheiro, comprar até oito do outro lado da fronteira. Ou seja, um pequeno agricultor no Brasil se tornava um granjeiro no Paraguai. Além disso, não havia muitas restrições para a compra, pois o controle por parte das autoridades paraguaias era precário”.

 

No entanto essa facilidade de comprar terras em outro país também trouxe problemas às famílias, pois a especulação imobiliária fez funcionários públicos se corromperem. Muitas vezes, a mesma terra era vendida para até três pessoas sem emissão de títulos ou eram lotes situados em locais muito isolados. Assim muitos brasileiros acabavam por desistir das terras e as vendiam por um preço muito menor do que haviam pagado, voltando ao Brasil desolados.

 

Segunda fase

Em busca da terra prometida

 

Já a segunda fase aconteceu por volta dos anos 1980. “Naquela época o Brasil estava passando por uma modernização da agricultura, e os brasileiros estavam em busca de novas fronteiras agrícolas para expandir seus negócios. Mais tarde, em 1970, quando teve uma grande imigração de brasileiros do Sul para o Norte do país, eles descobriam também o Paraguai, pois a Ponte da Amizade e a Itaipu estavam em fase final de construção, por isso a região estava em alta”, explica o geógrafo.

 

O presidente do Paraguai, Alfredo Stroessner, quando assumiu o poder, tinha em mente atrair migrantes para desenvolver o país. Segundo explica Luiz, “o Paraguai era considerado, antes de Itaipu e dos imigrantes brasileiros, uma grande fazenda em que eles viviam de trocas, e o comércio exterior era quase inexistente”. E como os brasileiros do Sul tinham o desejo de expandir seus negócios e estavam próximos da fronteira, decidiram atravessá-la. Mas ao contrário dos brasileiros da primeira fase, esses tinham mais condições financeiras, por isso migraram com maquinários e dinheiro, dispostos a trabalhar bastante e construir a vida lá. Chegando ao Paraguai compraram grandes áreas de terra em cidades como Los Cedrales, Santa Rosa e Santa Rita, onde começaram a produzir, tornando-se grandes fazendeiros.

 

É nessa fase em que a modernização da agricultura no Paraguai atinge seu auge, com a implantação das granjas de soja. Entretanto não somente a agricultura se desenvolveu, como também toda a região da fronteira. Os embriões urbanos fundados pelos brasileiros foram crescendo e, em pouco tempo, o que antes era uma região desabitada, imersa em florestas, viu nascer cidades com ruas, comércio e escolas. Com o surgimento dessas pequenas cidades, outros setores da economia local se desenvolveram, atraindo grande quantidade de pessoas de outras regiões paraguaias, o que favoreceu o aumento demográfico na fronteira.

 

“Os projetos de integração entre os dois países foram de fundamental importância para o desenvolvimento da região fronteiriça. Os acordos que fizeram possível a emigração em massa de colonos para o Paraguai estavam baseados principalmente na necessidade de modernizar a agricultura paraguaia e povoar a fronteira”, destaca Luiz.

 

Desenvolvimento do Paraguai

 

Em busca da terra prometida

Santa Rita- Uma das cidades formadas por brasileiros. Foto: Benito Villallba

 

Para se ter uma ideia, atualmente cerca de 55% do PIB paraguaio é produzido por brasileiros que vivem lá. Além disso, hoje o Paraguai é o quinto maior produtor de soja do mundo. Tudo isso graças aos migrantes brasileiros que apostaram em começar a vida em outro país.

Em busca da terra prometida

Los Cedrales - Voltada à agricultura realiza a Festa da Colheita. Foto: Marcelo Frare Willeman

 

Para demonstrar o grau de desenvolvimento da colônia migratória, o geógrafo tomou como exemplo, em seus estudos, a comparação entre as cidades de Santa Rita, fundada por brasileiros, e Paraguari, tradicional urbanização paraguaia próxima de Assunção. Nesses exemplos se podem notar as diferentes estruturas espaciais que conformam as cidades tradicionais paraguaias e as derivadas da colonização. Paraguari, capital do departamento de mesmo nome, possui 238 anos de existência. Apesar disso, conta com uma população de apenas 23 mil habitantes e sua economia está baseada na produção de gêneros alimentícios para abastecer a capital. No lado oposto está Santa Rita, com só quatro décadas de existência, quase 40 mil habitantes, uma produção agropecuária voltada ao comércio exterior e um PIB muitas vezes superior ao de Paraguari.

 

Ao chegar a essas cidades, consideradas brasiguaias, é como se você estivesse no Brasil. Isso porque os costumes são os mesmos, a cultura prevalece, a língua falada é o português, o rádio e a televisão divulgam as informações vindas do Brasil.

 

Não dá para negar que já houve conflitos entre brasileiros e paraguaios, porque muitos vizinhos enxergaram a colonização brasileira como uma “invasão” de suas terras. Esse sentimento está relacionado também a vários fatores históricos. “Os paraguaios têm uma cultura muito diferente da nossa, a maioria deles não tem uma visão de exploração capitalista sobre a terra. Assunção foi uma cidade que nasceu para servir de entreposto para os espanhóis colonizadores. Então a população paraguaia sempre ficou concentrada em torno da capital, deixando as regiões periféricas vazias”, destaca Luiz.

 

Em razão da facilidade que os brasileiros encontraram para cruzar a fronteira e também da existência de terras férteis a ser exploradas, eles investiram no país vizinho – algo que os paraguaios não fizeram porque não tinham incentivos do governo, pois não existiam, e ainda não existem, órgãos para auxiliá-los no desenvolvimento da agricultura familiar.

 

Hoje em dia

 

Atualmente a migração de brasileiros para o Paraguai é irrelevante. Segundo o estudo feito por Luiz, os cerca de 500 mil brasiguaios estão expandindo seus negócios e propriedades. Há também muitos profissionais da área de engenharia e agronomia que, ao se formar, mudam-se para essas regiões do Paraguai para trabalhar no desenvolvimento do agronegócio, geralmente influenciados pelos brasileiros que vivem lá e precisam de ajuda técnica.

 

Mas há também aquelas famílias que têm terras no Paraguai e vivem no Brasil, na chamada segunda residência. Conforme explana Luiz, elas fazem isso para ter uma garantia: “Eles mantêm um imóvel aqui para o caso de acontecer alguma coisa lá, já que o governo do Paraguai é muito instável. Outro fator é para que os filhos possam estudar aqui”.

 

Seja como for, o fato é que, apesar dos problemas existentes, a migração foi benéfica para cidadãos de ambos os países; por um lado, favoreceu a modernização da agricultura paraguaia e contribuiu para o desenvolvimento e repovoamento das regiões de fronteira; por outro, permitiu que brasileiros em busca de vida melhor se estabelecessem e progredissem em solo paraguaio.

Leia também

Sol Imovéis e a confiança nos bons negócios

Sol Imovéis e a confiança nos bons negócios
Era o fim. Era improvável encontrar saída para pagar as dívidas que se acumulavam. Em dezembro de 99, a empresária Vilma Raquel Ultchak chamou funcionários e anunciou: “Eu acho que a gente vai ter que fechar”. Bem naquela época, Luciane Furmanovicz foi pedir emprego lá. Ouviu o seguinte da proprietária: “Se eu for abrir em janeiro,...