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Foz do Iguaçu

Aluizio Palmar e a luta contra a ditadura

Aluizio Palmar e a luta contra a ditadura
Annie Grellmann Annie Grellmann
19/08/2015 10:53hs
Uma vida pela democracia

Aluizio Palmar nasceu no dia 24 de maio de 1943, na cidade de São Fidélis, região canavieira do Rio de Janeiro. Começou a engajar-se na luta democrática durante a transição do governo de Getúlio Vargas para o de Juscelino Kubitschek.

Era Vargas: 1930-1945 1951-1954

Governo JK: 1956-1961

O Brasil vivia uma onda reformista. Luta pela reforma agrária, urbana, judiciária. Período forte de conscientização política, o que despertou o espírito de indignação no estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense. Não demorou para Palmar tornar-se militante. Com apenas 15 anos, já fazia parte do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Após o golpe de estado em 1964, ele e alguns companheiros de partido resolveram optar pela luta armada e fundaram o grupo revolucionário MR-8.

Movimento Revolucionário Oito de Outubro: O MR-8 foi uma organização brasileira de luta armada com orientação marxista-lenista que lutava contra a ditadura militar.

Em 1966, conheceu Foz do Iguaçu pela primeira vez. Alguns companheiros do Comando de Libertação Nacional tinham sido presos, e alguém precisava desenvolver a luta no meio rural. Aluizio assumiu a tarefa e cuidou de espalhar os ideais de uma sociedade igualitária na região de Assis Chateaubriand, Foz e Cascavel.

Nesse mesmo período, teve a prisão preventiva decretada pela Primeira Auditoria de Exército do Rio de Janeiro. Mesma época em que conheceu a esposa, Eunice. Casaram-se clandestinamente em 1967 na cidade de São Miguel do Iguaçu. Lua de mel para eles era luxo. No dia seguinte, o militante precisou voltar à luta bem cedo. “Não tivemos lua de mel, essas coisas não. Casei durante a militância. A minha filha quando nasceu, eu estava no Presídio Ahú de Curitiba.” Quando Palmar foi preso, a mulher estava grávida da filha Florita e clandestina em algum lugar que ele não sabia.

Ele foi detido em Cascavel, mas logo acabou transferido para o Primeiro Batalhão de Fronteira de Foz do Iguaçu. Lembra-se ainda como se fosse ontem das torturas. “Pressões de todo tipo, desde choque elétrico, afogamento, pau de arara.” As sessões de tortura eram realizadas no batalhão do Exército de Foz em plena luz do dia. Além da dor física, tinha a psicológica. Teve um capitão que ameaçou provocar um aborto na esposa de Aluizio. "Filho de comunista, comunista é. A ideologia é transmitida pelo sangue."

Depois foi transferido para o quartel da Polícia do Exército de Curitiba, Presídio do Ahú (Curitiba), Base Naval na Ilha das Flores (Rio de Janeiro), Presídio da Marinha (Ilha das Cobras) e Presídio da Ilha Grande (Rio de Janeiro).

Um dos trocados pelo embaixador suiço: Liderada por Carlos Lamarca, no dia 7 de dezembro de 1970, a Vanguarda Popular Revolucionária(VPR) sequestrou o embaixador suíço Giovanni Bucher. Foi um dos sequestros mais dramáticos, com 40 dias de espera. O governo brasileiro demorou a atender à exigência dos guerrilheiros de libertar 70 presos políticos.

Vanguarda Popular Revolucionária:A VPR foi uma organização de luta armada da resistência que lutava contra o regime militar.

Torturado nos porões da ditadura militar, Aluizio estava na solitária do Presídio da Ilha Grande (RJ) quando seu nome foi incluído na lista dos presos políticos que deveriam ser trocados pelo embaixador. Ele e os companheiros foram banidos do país e exilados no Chile.

Quem foi Carlos Lamarca? Capitão do Exército, Carlos Lamarca se rebelou contra o regime ditatorial. Abandonou o quartel no ano de 1969. Foi um dos principais combatentes da VPR – organização da resistência à ditadura militar. Lamarca morreu fuzilado em 1971 no interior da Bahia.

Exílio: Expulsão ou mudança forçada de uma pessoa de seu país, por decreto de autoridade, como pena ou castigo.

Ao sair do cárcere, permaneceu exilado por um ano e meio (1971/1972) no país governado por Salvador Allende – político de esquerda marxista chileno. Inquieto e com vontade de lutar, queria voltar para continuar a luta no Brasil. Saiu do Chile clandestinamente com ajuda do Movimento de Isquierda Revolucionário (MIR). “Voltei descaracterizado, com óculos, os olhos azuis viraram castanhos por causa das lentes de contato, cabelos negros bem penteados.”

De 1972 até 1979, lutou contra o regime e sem ser identificado. Em setembro de 1979, Aluizio recebeu a anistia. Ele estava no Rio de Janeiro quando telefonou para a mulher, Eunice, e disse: “Venha para o Rio, aqui é o meu chão, aqui é a minha história, vem pra gente continuar essa luta”. A esposa – também de personalidade forte – afirmou que era para ele escolher entre a militância no Rio e a família. Aluizio escolheu a segunda opção e veio definitivamente para Foz do Iguaçu.

Anistia: Palavra que deriva do latim que significa esquecimento. Dessa forma o poder público se ausenta do poder de punir e torna aqueles que cometeram um crime descrito como anistia impuníveis, que em regra são os crimes políticos.

Pioneiro na comunicação em Foz: Quando retornou à fronteira em 1979, começou a trabalhar como jornalista profissional no semanário Hoje Foz – que posteriormente foi vendido para Jucundino Furtado, político ligado à antiga Arena (Aliança Renovadora Nacional), partido de sustentação da ditadura. Claro que Aluizio e os colegas que trabalhavam com ele, João Adelino de Souza e Juvêncio Mazzarollo, foram demitidos. Eles tinham uma linha editorial mais engajada nas ideias políticas, sociais e democráticas. “Fomos mandados embora. Disseram que nós tínhamos ideias comunistas.”

Os três criaram um novo jornal, o semanário Nosso Tempo. A primeira edição foi lançada em 1980. A reportagem principal foi sobre a existência de tortura na delegacia de polícia de Foz do Iguaçu. O jornal foi vendido em 1994 por causa da mudança do contexto político nacional. Com a redemocratização, passou a ser um periódico comercial e perdeu a razão de existir. Fechou em 1994, mas toda a história está guardada no site www.nossotempodigital.com.br.

Documentos revelados: Aluizio mantém o site de referências históricas da ditadura militar www.documentosrevelados.com.br, no qual disponibiliza acervos documentais. São cerca de 80 mil documentos, como lista de obras censuradas, de torturadores, de mortos, de desaparecidos e de operações ilegais.

Onde foi que vocês enterraram nossos mortos? Em 2005, Aluizio publicou o livro Onde foi que vocês enterraram nossos mortos?, em que narra a história verídica de busca de seis amigos militantes que insistiram em continuar com a luta armada após a derrota das organizações guerrilheiras. Dos seis, cinco foram assassinados no interior do Parque Nacional do Iguaçu e o sexto em uma casa clandestina em Foz do Iguaçu.

A luta não para

Aos 73 anos, Aluizio Palmar ainda continua a luta. Ele quer que a memória de Foz venha à tona. “A memória esquecida é que vai explicar o caráter de Foz, do cidadão. Existe uma história que não pode ser esquecida. A memória da cidade não é só o Cabeza de Vaca, Cataratas. A memória da cidade é muito mais que isso, é o genocídio que houve com a população indígena. Onde ficou essa história? Não houve discussão nem debate”.

Só tem uma forma de cicatrizar a ferida e é falar.

Aluizio Palmar