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Foz do Iguaçu

A história do artista e cabeleireiro Orlando Rodrigues

A história do artista e cabeleireiro Orlando Rodrigues
Annie Grellmann Annie Grellmann
15/09/2015 12:21hs
Orlando Rodrigues encarando a foto do jeito que encara a vida

Foto: David Antunes



Encarando a vida

Natural de Foz do Iguaçu, Orlando Rodrigues, o "Chico", nasceu em 1972, na Vila Adriana. O parto foi “normal”, ou quase. A bolsa estourou enquanto a mãe, Pancracia Rodrigues Siqueira, caminhava pelo bairro. Orlando, o caçula de 11 irmãos, nasceu nas mãos do primogênito, que só depois chamou a parteira do bairro para cortar o cordão umbilical.

A infância e adolescência não foram fáceis. Chico sempre foi o “diferente” da família. Gostava de dançar e queria ser bailarino. A mãe era a única pessoa com quem falava em casa.

Quando tinha 12 anos, viu um dos irmãos matar o outro a facadas. "Naquele segundo, vi minha mãe morrer. Perdeu o brilho, nunca mais foi a mesma", conta. Seis meses depois, outro irmão sumiu. Foi encontrado enforcado no meio de uma plantação no bairro Patriarca. Aos 16 anos, mais um golpe da vida: a mãe descobriu que estava com câncer no útero. Na época, o tratamento só era possível em Curitiba. Ela foi pra lá. No outro dia, o menino partiu rumo à capital. Foi um dos momentos mais difíceis ver a mãe morrer a cada dia sem poder fazer nada. Seis meses depois, ela se foi.

O velório foi em Foz. Na ocasião, tinha a esperança de que algum dos nove irmãos daria abrigo para ele. Não aconteceu. Viu os irmãos, um por um, indo embora. O socorro veio da comunidade do bairro. O pessoal da escola e os vizinhos o ajudaram. Eles sabiam que Orlando não tinha um tostão. Chegavam delicadamente ao seu lado e davam cinco, dez reais. Desse jeito conseguiu pagar o velório.

"Tive que ganhar a vida."

Com 16 anos e sozinho em casa, o rapaz precisava sobreviver. Sem saber o que fazer, caminhou até a sede do Provopar, onde tinha um artesão que ensinava pinturas de graça. Ao mesmo tempo, começou a "fazer tudo": cortava grama e limpava casas até juntar dinheiro e comprar estoque de tinta e tela em branco. Começou a pintar. Sem grana para pagar o ônibus, ia a pé da Vila Adriana até a Avenida Brasil com um quadro enorme nas mãos. Era também uma estratégia para que as pessoas vissem o trabalho e comprassem.

Aos 17 anos, entrou em processo de autodestruição. Tentou matar-se diversas vezes. Atirou-se na frente de carros e começou a usar drogas e a beber sem controle. Certa vez, não comeu nada por alguns dias. Foi para o colégio onde "estudava" – porque ele não ia às aulas. Ia somente para comer. Para a sua infelicidade naquele dia tinha somente um banquete de frutas. Comeu uma penca de bananas, e nada de a fome passar.

Uma colega chamada Joselene viu a situação do garoto e o levou para casa. A mãe dela, dona Mirtes Maquardt, abriu as “portas” do coração. Naquele dia, ele comeu, sem parar, cachorro-quente e três pratos de refeição. Enquanto jantava, elas perguntavam sobre a vida dele. Mirtes disse para ele ficar na casa dela e ajudar com serviços domésticos. Orlando ganhou uma nova, ou talvez a primeira família – que chama carinhosamente de "família das onças". Afinal, eram quatro mulheres. Sentiu-se amado e decidiu assumir para todo mundo a homossexualidade – algo bem resolvido pra ele.

De casa nova, não perdeu tempo. Foi atrás do dinheiro. Começou a dar aulas de pintura. Somente por hobby. O grande sonho era o de ser estilista e ter a própria linha de roupas. Em 2011 foi semifinalista, na categoria Estilista Revelação, do estado do Paraná para a TV Xuxa. Ficou só por aí. Resolveu inovar, pois precisava ter mais alguma renda. "Vou ser cabeleireiro. Quero algo mais, quero vencer na vida."

Os amigos eram todos cabeleireiros. Resolveu ser também. Nesse período em que ia começar com os cabelos, fez acerto no emprego que tinha pela prefeitura ensinando pintura. Como sempre quis conhecer a Europa, pegou todo o dinheiro que recebeu e foi até Portugal. As coisas não deram muito certo. Foi deportado.

"Com 30 anos de idade, ter dado um passo errado na vida foi a pior coisa."

Quando voltou, não tinha mais nenhum centavo. O mar da pobreza estava de volta. Passou fome outra vez, até que a amiga Rosa de Freitas o indicou para um salão de beleza da cidade. Ele? Não sabia nem lavar cabelo. Voltou com as aulas particulares de pintura, que mal davam pra sobreviver. Começou o curso de cabeleireiro. O tempo dele era dividido entre o salão, o curso e algumas aulas particulares.

Matava a fome dividindo a marmita com os companheiros de trabalho. Às vezes, quando a barriga doía de fome, pegava escondido o resto da comida dos colegas na geladeira.

Driblando obstáculos

Orlando voltou a pintar há um ano. Criativo como ninguém, pinta sete telas ao mesmo tempo. Gosta de criar quando escurece. Não costuma dormir muito – de 30 minutos a quatro horas diariamente. Sempre com gás e vontade de vencer, não gosta de perder tempo para descansar. A primeira exposição que fez teve como tema "Eu e as negas". Expôs 50 quadros; 45 foram vendidos.

Abriu um pequeno salão de beleza há um ano e meio com a sócia Cleonice Espindola. Faz seis meses que inauguraram um estabelecimento maior. O sucesso já bate à porta e Chico, com sua simpatia e o jeito de sorrir para as coisas boas e também ruins da vida, já conquistou muitos clientes fiéis aos seus trabalhos.

O que o aquariano torto – como se autointitula – espera da vida de agora em diante? Ter uma velhice decente, uma casa própria. "Ser veado, velho e pobre ninguém quer."

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